Aventura na Namíbia

Trajeto que atravessa o deserto do país dura 20 dias e proporciona paisagens em estado bruto

Michelle Glória – Especial para O GLOBO

Publicado em 26 de março de 2015 no jornal O Globo.

CIDADE DO CABO – Atravessar o deserto da Namíbia até o Victoria Falls National Park, no Zimbábue, a bordo de um caminhão, acampando ao longo do trajeto e dormindo, a cada noite, em um lugar diferente em profundo contato com a natureza da África austral. Durante 20 dias, embarcamos numa aventura daquelas que não se esquece.

O ponto de partida é a Cidade do Cabo, na África do Sul. Operadoras de viagem locais oferecem diferentes roteiros pelo sul do continente africano a bordo de um truck, que na verdade em nada se assemelha a um caminhão, mas, sim, a um ônibus adaptado com tração 4×4 e superconfortável.

Uma aventura com segurança e autenticidade, em que você observa os animais em seu habitat natural, a natureza em estado bruto.

Durante a viagem, para se sentir um pouco mochileiro, ajuda-se a preparar a comida, cortando os vegetais, carne etc. à moda do chefe-guia. Também lavamos os pratos, montamos e desmontamos a barraca todos os dias. Não foi tão moleza assim. Mas fizemos tudo isto a bordo do confortável truck. Além do que, as barracas também eram bem espaçosas para duas pessoas. Um luxo.

Eu diria que viajar num truck é aventurar-se em alto estilo. Não se negocia preço, confere horário de ônibus, procura restaurante etc. Só lhe é “exigido” sentar na poltrona e apreciar a esplêndida paisagem pela janela.

A odisseia começa na praça Greenmarket, no centro da Cidade do Cabo. Parte-se cedo. Subimos pela costa oeste desde a Cidade do Cabo, na África do Sul, até Walvis Bay, na Namíbia. São três dias até a primeira parada turística com paisagem de tirar o fôlego: o monumental cânion Fish River, o segundo maior da África, de clima semidesértico, já no território da Namíbia. As temperaturas da região oscilam entre 48°C de dia e 30°C à noite, no período de outubro a março; e entre 20°C e 0°C, respectivamente, de abril a setembro.

UM ESPETÁCULO EXÓTICO                                                                      

Na manhã seguinte, depois do delicioso café preparado pelo guia, que ao mesmo tempo é chef, desmontamos acampamento, e seguimos viagem para uma das espetaculares obras da natureza: o deserto da Namíbia, com suas ondulações do mar de dunas e matizes da cor ocre ao bege claro. O ponto auge da viagem. Um esplendoroso e exótico espetáculo.

No dia seguinte, antes mesmo do alvorecer, o grupo sobe com lanternas até o topo da Duna 45, para ver o sol nascer na linha do horizonte. Presenciamos, então, a imagem de uma bola de fogo laranja-avermelhada, que se ergue no céu africano.

No sexto dia, cruzamos o Trópico de Capricórnio. Chegamos à bucólica cidade costeira de Walvis Bay e encontramos flamingos emoldurando o pôr do sol.

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Depois, temos um dia livre, segundo a programação da agência, que nos oferece atividades opcionais como: saltar de paraquedas, andar de quadriciclo motorizado (quad biking), sand boarding, sobrevoo e pescaria, entre outras atividades. Mas o visitante também pode simplesmente relaxar à beira-mar. De Walvis Bay na Namíbia partimos para o interior da África, em direção à impressionante Cataratas Vitória, no Zimbábue.

BOTSWANA E ZIMBÁBUE: COM MEDO DE ENCONTRAR UM DOS BIG FIVE

Durante a travessia pela África Austral, em que passamos por quatro países, visitamos a tribo Himba, fizemos safáris em dois parques nacionais: não apenas o de Etosha, na Namíbia, como o de Chobe, em Botswana.

E foi aí, em Botswana, o ponto alto nessa segunda fase da nossa viagem: o inesquecível camping no Delta do Okavango, quando foi a vez de fazer o safári a pé.

Na África do Sul, tínhamos saltado de bungee jumping, mas o máximo da adrenalina da viagem foi mesmo esse safári a pé. Afinal, estávamos diante da expectativa de encontrar um ou algum dos Big Five — búfalo, elefante, leopardo, leão e rinoceronte — em plena selva africana.

No delta, acampamos sob árvores frondosas, dormindo no meio da savana africana. Passamos três dias e duas noites à margem do Rio Okavango. À noite, sentíamos certo medo de sair da barraca. E se encontrássemos um leão ou um bufálo?! Preferia esperar o amanhecer.

Ao mesmo tempo em que deseja chegar perto dos animais, naturalmente o viajante pensa no que vai fazer se isso acontecer. A recomendação dos guias, caso isso aconteça, é não correr, olhar para eles. Felizmente, não chegamos a tanto. O máximo da tensão foi quando avistamos um búfalo, a pouquíssimos metros, entre os arbustos.

O bicho pressentiu nossa presença. Eu e meus companheiros nos entreolhamos com apreensão. Mas ele correu para o outro lado. Nunca meu coração disparara tanto. Uma experiência singular e única. E que eu recomendo.

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Adoramos todos os destaques do roteiro, exceto a visita à tribo Himba, na Namíbia, perto de Etosha, devido aos cliques das máquinas fotográficas, feitos sem a permissão dos moradores locais.

No décimo nono dia, por fim, nós alcançamos o Parque Nacional de Victoria Falls, no Zimbábue. Optamos por fazer um sobrevoo. Valeu muito ver a fumaça de água que sobe das cataratas. Lindíssimo visual, com imagens que ficam para sempre.

SERVIÇO

O pacote para tour de 20 dias sai da Cidade do Cabo, na África do Sul, e vai até as Victoria Falls National Park, no Zimbábue, atravessando o deserto da Namíbia. Para quem opta por fazer a viagem dormindo em barracas de camping, o valor do pacote é de US$ 1 mil.

Quem prefere se hospedar em pousadas todas as noites, durante a travessia, paga US$ 3.350. nomadtours.co.za

http://oglobo.globo.com/estilo/boa-viagem/aventura-na-namibia-para-observar-animais-em-seu-habitat-natural-15694545

A Mulher e a Morte

“Olha-se no espelho e se odeia. Olha-se no espelho e gosta do que vê. No espelho ora se reconhece, ora sente estranhamento. Tem vontade de chorar. Sente a fúria do destino. O espelho reflete a mulher que para ele olha, mas reflete também o mundo e o outro, no qual ela se espelha, e que, por sua vez, espelha-se nela. Tudo vai se espelhando e e já não é possível saber quem é ela, quem sou eu e quem é você. O velho triste é hipnotizado pelo espelho do elevador, assim como a criança sardenta e como ela, que retoca o batom. Seria somente vaidade?

Ela não é a primeira, nem será a última, dela já nasceu outra, que mesmo pequena sabe que é mulher. É noite, faz frio, ela está sozinha deitada na cama. Pariu, sofreu, tem alma. Do que sabia Aristóteles? De poética e Filosofia? Ela aprendeu a ler, mas aquela escritora, um século atrás, foi impedida de entrar na biblioteca. A razão? Era mulher. Ainda é noite, escura, mas ela já pode votar. Mulheres escrevem livros sem ter de usar pseudônimos. Ela nasceu com direitos já conquistados. Estudou matemática, leu filósofos, prosadores e poetas, tirou boas notas, passou de ano, tem bacharelado, mestrado e doutorado. Casou-se, criou os filhos, divorciou-se e voltou a se casar. Trabalha, paga suas contas, mas gosta quando a convidam para jantar. Faz ginástica, regime e aplicações de Botox. No meio do caminho tinha uma pedra. É difícil ser mulher? É difícil ser mulher sem cintura fina e a juventude ao lado? Ela crava os olhos no espelho. A mocidade vai embora, a beleza vai embora, o vigor vai embora. Só quem não vai embora é a morte.

Mas sem a consciência da morte não existe vida, nem reflexo no espelho que garanta a ela estar viva, com todas as possibilidades que ali se espelham, transfiguram e produzem, fazendo com que o agora, o instante-já, seja a eternidade.

E com a morte, qual o destino da sua consciência? A total inconsciência? Essas concepções, essas crenças sobre ressurreição, reencarnação são meros artifícios cujo objetivo é nos tornar menos solitários, ou infelizes, ou temerosos. Na verdade, a morte é o começo e o fim de tudo basta olhar no espelho.”


Por Paula Parisot, escritora brasileira.

Revista O Globo, 27 de julho de 2014.

Reflexo. África do Sul. Dezembro 2010.

Meu Bairro

Emocionante voltar à Granja Guarani depois de cinco anos da minha pesquisa de mestrado, de 2006 a 2008, com adolescentes das comunidades do bairro.

Após dois anos fora do Brasil, perdi o contato com os adolescentes. O jornalista Cesar Rodrigues, ex-morador da Granja Guarani, me encontrou pela Internet e me contou das boas novas. A Associação dos Moradores e Amigos da Granja Guarani (AMAGG) cresceu e se fortaleceu, obtendo reconhecimento, em 2013, como associação de utilidade pública pelo Legislativo local. E me informou, também, que fui a pesquisadora pioneira, tendo sido realizadas outras pesquisas científicas, inclusive de universidade do exterior. Notícias que me deixaram muito contente, em saber dos avanços do bairro rumo à inclusão cidadã.

Minha relação com a Granja Guarani começou com a mudança da minha mãe, em 2003, do bairro Inhaúma, no Rio de Janeiro, para o bairro Comari, em Teresópolis, vizinho às comunidades populares da Granja Guarani.

Passava ali de carro, sempre olhava o pulsar da comunidade e pensava em um dia desenvolver um trabalho social com adolescentes. Fase de grandes mudanças e desafios na vida de um ser humano. A formação da identidade. A descoberta de si. O preâmbulo da vida adulta. Escolhas profissionais. Múltiplas possibilidades e caminhos a seguir. Inseguranças sobre o futuro.

Como fotógrafa, minha contribuição foi a partir do aparato da máquina fotográfica permitir que os adolescentes fotografassem si mesmos e o seu bairro – espaço de construção de subjetividades, de sentimentos de pertencimento e adequação-, desvelando aspectos positivos e também negativos da vida nas comunidades populares, no contexto da sociedade brasileira.

O cerne da pesquisa foi a exclusão simbólica de moradores de bairros populares, em razão do preconceito social, e seus reflexos na autoimagem e na autoestima dos adolescentes. O objetivo da pesquisa foi ressaltar os aspectos positivos da vida comunitária de modo a enfatizá-los para os próprios adolescentes participantes da pesquisa, para os moradores, tecendo, registrando a história visual, construindo o autorretrato do bairro. Apresentá-los para os não-moradores, para a sociedade local, de modo a desvelar a singularidade do bairro, afastando a névoa dos “pré-conceitos” – intrínsecos ao desconhecido.

Sinto-me à vontade para falar sobre esse tema “preconceito social”, por também já ter estado neste lugar, nessa posição de adolescente moradora de bairro excluído simbolicamente. Sou nascida e criada em Inhaúma, no subúrbio do Rio de Janeiro. Muito comum ouvir a palavra “suburbana” em tom depreciativo, até os dias atuais.

Posso dizer, na primeira pessoa da narrativa, que o preconceito fere a alma e, por consequência, a percepção de nós mesmos. E na adolescência, esta violência simbólica-psicológica tem um peso especial, porque é um momento delicado da vida. Precisamos ser confiantes, determinados, quase obstinados para superar os obstáculos e adversidades, principalmente, os adolescentes de camadas sociais desfavorecidas. É preciso muita autoconfiança. É preciso muita autoestima. Determinação. Obstinação. Superação.

Por isso, a escolha em desenvolver um trabalho de inclusão visual com adolescentes de bairros populares, em posição de desvantagem, material e simbólica, em relação aos adolescentes de camadas altas da sociedade brasileira. Uma forma de contribuir para enfatizar para eles mesmos os aspectos positivos de suas vidas, construindo e consolidando esse olhar positivo, que se materializa no suporte do papel fotográfico, nos blogs e redes sociais. Ao meu ver, fundamental para a autoestima dos adolescentes, para a autoimagem dos seus moradores. Fundamental para retirar o véu do preconceito e desconhecimento que separam os moradores de bairros populares e de bairros abastados, em prol de um mundo com respeito às diferenças.

Principalmente, para os protagonistas deste espaço social contarem as suas histórias a partir dos seus olhares.

E construir em seus imaginários sentimentos de mobilidade e inclusão social. Inclusão cidadã. De exercício de Cidadania.

Dissertação de mestrado: 

Campo base do Everest

Everest 1

Everest 2

Everest 3

Everest 5

Everest 6

Para ler a matéria, clique no post anterior.

Campo base do Everest

Everest: Aventura para Amadores

Michelle Glória – Especial para O GLOBO

Matéria publicada no jornal O Globo de 8 de dezembro de 2011. Chegar perto do topo do mundo é um sonho possível. E uma experiência de vida inesquecível. Ainda que seja uma dura jornada que pode demorar mais de duas semanas, os aventureiros de hoje dispõem de comodidades impensáveis em 1953, quando o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay conquistaram o Everest. Atualmente, com empresas que cuidam de toda a logística, está mais fácil alcançar o campo base, onde montanhistas profissionais passam cerca de dois meses se aclimatando para tentar chegar até o cume, a 8.848 metros de altitude. As melhores épocas para uma viagem como essa são de março a maio, na primavera do Hemisfério Norte, e de setembro a dezembro, no outono. Há agências que levam milhares de pessoas por ano ao Everest e organizam tudo, desde a reserva de hotel em Katmandu, a compra da passagem aérea até Lukla – onde começa, de fato, a expedição turística – e o pagamento de taxas governamentais até o transporte das bagagens e o preparo da comida durante os dias na trilha. Aos viajantes, basta caminhar muito. Para se conquistar parte da Sagarmatha (deusa do céu ou testa do céu), como chamam os nepaleses, ou da Chomolungma (divina mãe do Universo), como a montanha é conhecida pelos tibetanos, é preciso ter disposição e um bom preparo físico. A subida até o acampamento base, a 5.364 metros de altitude, e a descida são feitas durante 16 dias de Aventura temperada pelo contato com a população, seus trajes, suas comidas e bebidas típicas, e a observação de cenários naturais fantásticos, celestiais. Para explorar a paisagem o melhor é pegar o caminho mais longo, que também é o mais bonito, passando pelos Lagos Gokyo. Foi o que fizemos.

Em cinco dias, 4.470 metros de altitude e muitos picos nevados

Katmandu, a capital do Nepal, a 1.300 metros de altitude, é a porta de entrada para a Aventura na montanha. Os serviços das agências que vendem pacotes para o Everest, como a Himalayan Glacier Trekking, geralmente começam aqui. Duas noites na cidade é o tempo ideal para visitor os pontos turísticos do Vale de Katmandu e finalizar os preparativos para o trekking, verificando todo o equipamento com o guia. Conhecer a Durbar Square e fazer um delicioso passeio de riquixá pelas ruas da área turística de Thamel são programas imperdíveis. Em Durbar Square, fazem sucesso os entalhes ao redor do templo Jagannath que mostram as posições do Kama Sutra. E das varandas da torre Basantapur, observa-se do alto o dia a dia nas ruas de Katmandu.

Estupas.

No Vale de Katmandu, ficam as estupas Swayambhunath e Bouddhanath, essa a maior do Nepal. Quem chega ao cair da tarde ao templo budista, observa parte da agitação dos turistas que vieram durante o dia e a atmosfera sagrada da noite, quando dezenas de peregrinos caminham em volta do monumento religioso, fazendo suas orações e prostrações – ato de libertação da negatividade da mente e de reverência a Buda. Depois de turistar por Katmandu, havia chegado a hora de partir para a montanha. No primeiro dia de caminhada, acordei com um frio na barriga. A adrenalina começou no aeroporto, ao embarcar num avião pequeno. Em 40 minutos de voo, chegamos a Lukla, povoado a 2.840 metros de altitude, ponto de partida do trekking. O visual deslumbrante dos picos nevados do Himalaia cortando as nuvens faz esquecer o medo. Desembarquei eufórica. O primeiro dia é leve, com três horas de caminhada até o vilarejo Phakding, a 2.610 metros, onde pernoitamos. Chegamos por volta de meio-dia e descansamos, preparando o corpo para seguir a altitudes mais elevadas. Mais dois dias e chegamos a Namche. A 3.440 metros acima do nível do mar, é o maior vilarejo do trajeto, com cybercafés, sinucas e lojas de souvenirs. Passamos dois noites para aclimatar o corpo e evitar o chamado “mal da montanha”. É preciso subir devagar, beber muita água, fazer uma boa alimentação e respeitar os sinais. Se os sintomas do “mal da montanha” aparecem (dor de cabeça, náusea, vômito, perda de apetite), a recomendação é descer.

Namche a 3.440 metros de altitude.

Partindo de Namche, a jornada é ingreme. Vencida a colina, a trilha plana serpenteia pela encosta de um vale – sem muito esforço, puro deleite. Dia ensolarado, as pernas andavam sozinhas, inebriadas pelo cenário dos sonhos: picos nevados ao longo da trilha emoldurando a paisagem. No trajeto, uma estupa homenageia o Sherpa Tenzing Norgay e todos os sherpas do Everest, os verdadeiros tigres da neve. Com céu limpo, avistamos no fim do vale o pico da montanha. Dormimos na bucólica vila Dole, a 4.110 metros, de ambiente rustic e clima rural. Há poucas pessoas e alojamentos, começamos a entrar na solitude da montanha. Muitos turistas optam pelo percurso via Tengboche, direto ao acampamento base do Everest. Fomos pela trilha via Lagos Gokyo. É mais longa, mas o visual compensa. Na manhã seguinte, caminhada leve de três horas até Maccherma, a 4.470 metros acima do nível do mar. Outro dia prazeroso, com uma subida suave roadeada por montanhas. Os picos de neve eterna nos acompanham o tempo todo, para deleite visual. No quinto dia de caminhada, o corpo dá sinais de fadiga. Em Maccherma, um posto médico presta o primeiro atendimento às pessoas acometidas do “mal de montanha”. Mesmo sem os sintomas, fui até lá para medir o percentual de oxigênio no sangue: 90%. Segundo a voluntária que me atendeu, uma ótima taxa para 4.470 metros de altitude. Senti-me contente e cheia de coragem. O cansaço havia sumido.

Glaciar e iaques em paisagem surrealista

Glaciar Ngozumba.

No sexto dia estávamos prontos para avançar 400 metros de altitude, entrando cada vez mais nas terras remotas do Himalaia, o que aumentava o nível de adrenalina. A partir deste ponto, o resgate de helicóptero torna-se mais difícil – as condições climáticas a cinco mil metros nem sempre permitem o acesso da aeronave. Apesar da leve tensão, o dia revelou-se uma grata surpresa, com uma caminhada aprazível margeada pelo rio Dudh Koshi. No fim da jornada, um presente: o vale dos Lagos Gokyo. O visual mágico de suas águas plácidas naquele profundo silêncio da montanha é de tocar a alma.

Lago Gokyo.

Passamos dois dias às margens do terceiro Lago Gokyo, a 4.740 metros. Os mais entusiasmados também aproveitam para subir o pico Gokyo, a 5.360 metros. O cenário é belíssimo. Uma dica: vá à margem oposta do lago. A trilha margeia o sopé do pico Gokyo. Com sorte, é possível apreciar iaques selvagens – animais da família do touro, com grossa pelagem. Não são dóceis e podem ser agressivos. Por isso, não se deve chegar muito perto deles. Já estávamos no oitavo dia de nossa expedição e o espetacular glaciar Ngozumba dominava a paisagem. Cruzar o glaciar foi como estar no cenário desértico das pinturas de Salvador Dali. Passaria o dia inteiro ali contemplando aquela paisagem quase surrealista – um convite à viagem interior.

Iaques.

No dia seguinte saímos bem cedo de Thangnag, a 4.700 metros, para atravessar sem pressa Cho La Pass, a 5.368 metros. É o trecho mais técnico do trekking, com uma caminhada íngreme sobre a neve, que dificulta a passagem. Para uma subida segura, o ideal é usar bastões e crampons – agarras sob o solado das botas, como ferraduras, para os pés se fixarem na neve. Muitos turistas optam pela trilha via Tengboche principalmente para evitar este trecho. Meu conselho é fazê-lo com calma, concentrado em cada passo. Sem muita experiência em neve, tive a sensação de escorregar duas vezes. Mas foi só o susto. Confesso que cheguei lá em cima com a adrenalina a mil. E comemorei muito.

Missão cumprida com muita simpatia

Dois dias de caminhada e chegamos a Gorakshep, a 5.240 metros de altitude- último refúgio antes do acampamento base do Everest. A expectativa aumentava e o coração palpitava. O trecho final foi leve, com o majestoso glaciar Khumbu a nos acompanhar como um gigante adormecido. De longe já avistávamos o campo base: pontinhos amarelos surgiam no cenário e iam se tornando mais nítidos à medida que avançávamos. Eram as barracas do acampamento. A emoção aumentava à medida que chegávamos mais perto do coração da montanha. Há uma frase célebre de George Mallory, quando lhe perguntaram “Por que subir o Everest?”. Sua resposta: “Porque ele está lá”. O coração dispara ao alcançarmos o acampamento base, a 5.364 metros. Chegar “quase lá” foi o suprassumo da realização pessoal, um momento único para guardar no baú de memórias.

Campo Base ao longe.

Vale do Campo Base.

Na volta do acampamento base, encontrei dois russos que estiveram no cume. Quando assisti ao vídeo da conquista, com o infinito mar de montanhas e o céu azulado do topo do Everest, imaginei a adrenalina na reta final de ataque ao cume. Beber da aventura saciou o meu desejo. Escalar o Everest é um desafio para poucos, para tigres. Antes de descer, passamos pelo último ponto alto do trekking: o pico Kala Patthar, a 5.550 metros. Nevava ao amanhecer, o que nos impediu de subir e apreciar o visual do alto. Mas adorei ver os flocos de neve caírem, tudo ficar branquinho, envolvendo a montanha em clima de mistério. Nos próximos quatro dias seguimos descendo, via Tengboche, celebrando a conquista com saudades da aventura. Abaixo dos quatro mil metros, a vida volta a pulsar. Crianças seguem para a escola. E monges, para os monastérios budistas. Pastores conduzem seus pequenos rebanhos de iaques. Passamos novamente por Namche, agora em dia de feira. Lá vendem de tudo, de panelas a iguarias. Pudemos saborear mais um pouco da vida do Himalaia. Para fechar com chave de ouro, uma simpática senhora me cumprimentou: “Namaste”. Para eles significa um ato de humildade em reverência a outro ser humano, que quer dizer: “eu reconheço e respeito o Deus que existe em você”. Senti-me abençoada. Namaste para vocês também.

Serviços

Classificação do trekking: pesado. O que levar: mochila de 50 L e capa filtro solar, boné e óculos de neve roupas térmicas (segunda pele) casaco fleece casaco impermeável (anorak) camisas e calças de tecido respirável 2 pares de luvas gorro e balaclava 3 a 4 pares de meias botas impermeável e resistente a baixas temperaturas máquina fotográfica e baterias extras lenços umedecidos para bebê (Às vezes, está tão frio e a água morna, que o banho é a base de lenços umedecidos. Banho de água quente é pago à parte nos alojamentos, de 3 a 7 dólares) Nota: Saco de dormir, jaqueta, próprios para extremas temperaturas, bastões e crampons são fornecidos pela agência de turismo. Quem leva: www.himalayanglacier.com Quando ir: duas temporadas por ano, de fevereiro a abril, de setembro a novembro. Quanto custa: 1600 dólares. Resgate de helicóptero: 1 hora de voo em torno de 2.500 dólares. www.fishtailair.com, www.airdynasty.com

Trekking em Ladakh, Himalaia

Caminhadas de 4 a 21 dias são oferecidas pelas operadoras locais.

O destino tradicional dos trekkers é Markha Valley de 7 a 8 dias de duração. Pode-se dormir em barracas ou então nas hospedagens ao longo do trajeto.  A acomodação é rústica. Mas vale pelo contato próximo com os locais. Apesar do calor de deserto durante o dia, a noite faz frio. São necessárias roupas términas e saco de domir zero grau, o qual pode ser oferecido pela operadora.

Espere alguns dias para uma perfeita aclimatação à alta altitude antes de iniciar o trekking. Senti grande dificuldade nesta caminhada, devido ao calor e ar seco, variáveis com as quais eu não estava acostumada, em elevadas altitudes.

Quem leva: dreamladakh.com

Terceiro dia do trekking.

Rodovia mais alta do mundo, Ladakh

Três dias rodando de 4×4 pela rodovia trafegável mais alta do mundo.

Poucos minutos na estrada e já se atingem as nuvens. Leh, que está a 3.505 metros, fica lá embaixo pequena.

O jeep trafega na altitude dos picos nevados. O ponto mais alto é a passagem Khardung a 5.602 metros.

A estrada é estreita e sinuosa, muitas vezes com passagem para um carro. Assusta nas curvas fechadas. Do lado, o abismo. O código de trânsito é buzinar sempre antes da curva. O motorista não diminui a velocidade! Leve adrenalina. O melhor é confiar na perícia do motorista e relaxar!

O tour é um deleite aos sentidos visuais neste recanto remoto do mundo.

Ponto mais alto a 5.602 metros.

Monastério Disket, Nubra Valley.

Nubra Valley.

Quem leva: www.dreamladakh.com

Dica: programe sua visita de acordo com o calendário das festividades dos monastérios, quando há apresentação de danças e músicas tradicionais.

Pelos arredores de Ladakh, Himalaia

Vale a pena fazer passeios de um dia pelos monastérios nos arredores de Leh.

Com sorte, pode-se presenciar uma cerimônia budista.

A paisagem desértica da região de Ladakh é belíssima! Experiencia-se a vastidão do Himalaia.

A visita a Ladakh é imperdível para quem está mochilando pelo roteiro budista do norte da Índia.

Monastério Shey Palace.

Thiksey, monastério budista.

Thiksey, monastério budista.

Escrituras dos ensinamentos de Buda gravadas a ouro.

Cerimônia budista no monastério Thiksey.

Hemis, monastério budista.

Matho Valley.

Quem levadreamladakh.com