De Teresópolis a Petrópolis, dois dias pelas montanhas

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 20/jun/2004.

Sobre o infindo mar de nuvens 

Caminhar sobre as nuvens… Por onde os pensamentos alçam elevados vôos e a mente, em transe, anestesia todo o corpo… Nem é preciso ir longe para vivenciar essa experiência metafísica: no Brasil, caminhar nas montanhas do Rio de Janeiro produz esse estado de quase transcendência.

No Parque Nacional da Serra dos Órgãos, localizado entre os municípios de Teresópolis e Petrópolis (e também abarcando áreas de Magé e Guapimirim), é possível chegar à altitude de 2.263 metros. Basta percorrer a trilha de fácil acesso que conduz até a Pedra do Sino – ponto culminante do Parque. Para se ter uma idéia, o imponente pico do Dedo de Deus, a 1.692 metros de altitude – facilmente avistado da estrada que liga a cidade do Rio de Janeiro a Teresópolis –, lá de cima fica pequenininho. Nossa percepção das nuvens também é alterada. Elas ficam abaixo dos nossos pés, transformando-se num imenso mar alvo, que estende-se além da linha do horizonte, onde nossa visão não mais alcança.

Para quem deseja prolongar a sensação de caminhar sobre as nuvens, o ideal é fazer a clássica travessia Petrópolis-Teresópolis – sonho dourado dos amantes do montanhismo. São 42 quilômetros de puro contato com a natureza. Tradicionalmente, a caminhada começa em Petrópolis; porém, como a subida por esse lado é íngreme, optamos por iniciá-la no sentido contrário, em Teresópolis.

O percurso da travessia não é bem demarcado. Assim, recomenda-se fazê-la com um guia experiente. É muito fácil se perder nos platôs da Serra! Os clubes de montanhismo do Rio de Janeiro possuem vasto conhecimento das trilhas do parque. Outra opção é contratar uma agência de ecoturimo.

A travessia dura de dois a três dias. Levamos dois dias apenas. A caminhada é pesada. No primeiro dia, levamos nove horas da entrada do parque, na sede Teresópolis, até o acampamento no Vale das Antas. A trilha inicia-se por entre as robustas árvores da Mata Atlântica. São quase cinco horas de subida contemplando essa paisagem. A neblina, que é comum nesse trecho, contribui para o ar misterioso da floresta. O último ponto com estrutura de banheiro e água encanada, já na parte alta do parque, é o Abrigo Quatro – normalmente, utilizado para dormir por quem faz a travessia em três dias ou, apenas, pretende curtir uma noite próximo às estrelas!

Nós que prosseguimos logo passamos pela Pedra do Sino. A partir daí, o grau de dificuldade aumenta. A caminhada transforma-se em escalaminhada. Em alguns trechos, é preciso pisar aderindo a bota na rocha – técnica básica de escalada. Boa parte da trilha segue por entre os campos de altitudes – vegetação rasteira, típica das montanhas elevadas. No primeiro dia, não conseguimos apreciar a magnífica paisagem, pois a cerração estava densa. Ainda assim, valeu a pena estar ali, pois é fantástico sentir de perto as várias facetas da natureza – inclusive o mau tempo.

No dia seguinte, fomos presenteados com o céu azul. Festejamos! Depois de algumas horas de caminhada, nos deparamos com o visual da Baía da Guanabara, das montanhas da Serra dos Órgãos – Pedra do Garrafão, Dedo de Deus, etc etc etc. O corpo logo se esquece do cansaço físico e a mente mergulha na contemplação do belo cenário!

Antes de descermos para Petrópolis, paramos para fazer o último lanche. Também é preciso recarregar as energias! Sanduíches, barras de cereal, frutas, salaminho… Lá nas alturas, tudo vira um saboroso banquete. O espírito do grupo é de confraternização, solidariedade e alegria. Afinal, após intenso desgaste físico, conseguimos atingir nosso objetivo: apreciar a estonteante paisagem da Serra dos Órgãos, do infindo mar de nuvens e, é claro, da Cidade Maravilhosa – lá no fundo, como quem se esconde.

“Rumo ao Céu”. Foto premiada no concurso do Parque Nacional da Serra dos Órgãos em 2005.

Como ir:

http://www.icmbio.gov.br/parnaso

http://www.parnaso.tur.br

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