Monte Roraima

Misticismo na fronteira

Em Monte Roraima, na divisa com a Venezuela, lendas indígenas mesclam-se a cenários de sonho.

Michelle Glória

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 07 de dezembro de 2005.

BOLÍVAR, VENEZUELA – A aventura de desbravar a Grande Savana venezuelana nos faz sentir como coadjuvantes em um filme de Indiana Jones. As peripécias do herói em lugares exóticos bem que poderiam acontecer no lugar. Somente em longas expedições a pé, de mountain bike ou automóvel 4×4 é possível explorar a região. Além dos desafios naturais, as histórias ouvidas por lá despertam a imaginação com lendas indígenas sobre ervas com poderes sobrenaturais, guerreiros invisíveis, façanhas de caçadores em busca de tesouros perdidos e outras tantas… O ápice da expedição é desvendar os mistérios do platô do Monte Roraima, com 2.875 metros – onde está o terreno mais antigo do planeta e habita Macunaíma, entidade sagrada dos índios pemones (venezuelanos) e macuxis (brasileiros).

A Grande Savana (ou Gran Sabana, como dizem por lá), situada no Parque Nacional Canaima, no Sul da Venezuela e fronteira com o Norte do Brasil (divisa com Roraima), é o embrião do mundo. As formações rochosas daquela região remontam à era pré-cambriana, possuindo até 3.600 milhões de anos.

Grande Savana.

Imensos blocos de pedra na forma de mesetas (pequenos planaltos), chamados de tepuyes pelos pemones, emolduram o cenário da Grande Savana. As formações resultaram do acúmulo de sedimentos vindos das terras altas do supercontinente Gondwana, há 1.800 milhões de anos – quando América e África ainda estavam unidas, muito antes da fratura que originou o oceano Atlântico, separando os continentes. Pertencem à área geológica do Maciço das Guianas, que se estende além dos limites da Venezuela, ocupando parte da Guiana, Suriname, Colômbia e Brasil.

A bucólica vegetação rasteira da savana serpenteada por vales de moriches (buritis) mescla-se com a imponência dos enigmáticos tepuyes. São mais de vinte na região, sendo o Matawi-kukenán e o Monte Roraima os mais famosos. A subida ao tepuy Kukenán é muito íngreme e perigosa. No seu platô, além de a orientação ser difícil, há muitas fendas encobertas pela vegetação que tornam a caminhada arriscada. Um turista já desapareceu no topo sem deixar rastros. Por isso, a subida ao Kukenán é restrita.

– Kukenán é uma montanha sagrada. Nela vivem os espíritos de guerreiros pemones que não devem ser molestados – conta Benetton, guia indígena que acompanha os turistas na expedição ao Roraima. Para ele, o despertar dos guerreiros é a causa do desaparecimento misterioso do turista.

Benetton ouvia do seu avô histórias sobre lutas seculares pela posse da terra, travadas entre os índios macuxis e pemones (de etnia arekuna, kamaracoto e taurepang). Quando um guerreiro pemon era derrotado, jogava-se do alto do tepuy Matawi-kukenán. Na língua indígena, ”matawi” significa ”quero morrer” ou ”lugar de suicídio”.

– Os guerreiros arekunas ingeriam uma erva que lhes concedia poderes sobrenaturais. Passavam a ter agilidade e coragem sobre-humanas. Locomoviam-se dezenas de metros numa fração de segundos. Combatiam e matavam os inimigos sem temor – fala baixinho, quase pedindo licença, Benetton.

Os espíritos desses guerreiros são chamados pelos pemones de canaimas – entidades temidas até hoje. Quando alguma morte inexplicável acontece, os índios atribuem-na aos desígnios do canaima. Daí vem o respeito mítico de Benetton pelo Kukenán. O misticismo está entranhado nos pemones.

Jornada rumo ao topo

O roteiro tradicional dos montanhistas que exploram a região é a subida ao Monte Roraima. A porta de entrada ao mundo das pedras monumentais é a cidade de Santa Elena de Uairen, na Venezuela. Para chegar até lá, a melhor opção é voar até Boa Vista e percorrer cerca de 220 quiolômetros pela BR-174 até a divisa. Pelo lado brasileiro, não há como chegar ao topo do Roraima caminhando, só escalando; porém, o acesso não está aberto à visitação pública.

Vale a pena dar um pequeno giro pelo centro da interiorana Santa Elena. O passeio desnuda um pouco a história e a cultura locais. A cada esquina, os olhos se deparam com letreiros: “Compro oro y diamantes”– a savana já foi palco da mineração clandestina. Hoje, a garimpagem legalizada está nas cercanias do Parque Canaima.

Uma boa pedida para quem gosta de apreciar os costumes locais é tomar o café da manhã em frente à feira perto do Centro. Peixes, frutas e quinquilharias são vendidos pelos índios sobre o chão das calçadas. A profusão de cachos de bananas verdes impressiona. Elas são servidas fritas e saboreadas salgadas – os chamados plátanos, que acompanham as principais refeições. Vale a pena experimentar. Também não deixe de provar a arepa, um pãozinho redondo feito de milho. Servida quentinha, a iguaria derrete na boca.

Pelas ruas da cidade, carros caindo aos pedaços dividem o espaço com modernos 4×4, repletos de bagagem até o teto. Os venezuelanos dos centros urbanos adoram botar o pé na estrada, explorando as belezas naturais do caminho. Exibem com orgulho no vidro traseiro dos automóveis os seus intinerários: “De Caracas para Gran Sabana” (mais de mil quilômetros!). O estilo on the road não perde o conforto. Os 4×4 são superequipados. Na Grande Savana, é corriqueiro deparar-se com barracas armadas sobre os tetos dos carros. Possuem até escadinha para descer. Um luxo!

Viajar para o mundo pré-histórico e mítico do Monte Roraima é possível até para nós, seres comuns. Não é preciso ser tão intrépido e forte quanto Indiana Jones. Um pouco de vigor nas canelas e determinação bastam.

As expedições ao Roraima duram de sete a nove dias. Tudo dependerá da disposição de permanecer no topo. Dois ou quatro dias no platô são suficientes para conhecer todos os monumentos naturais e mergulhar um pouquinho num tempo muito remoto.

O início da trilha é na comunidade indígena de Paraitepui, a 70 km de Santa Elena de Uairén, em asfalto. Até a comunidade são mais 22 km de terra. Transitáveis só a pé, moutain bike ou (para quem deseja poupar as energias) num bem-vindo carro 4×4!

Após alguns minutos caminhando, uma subida íngreme assusta. O pensamento “não vamos conseguir” invade a mente. Passa rápido. Logo o desnível acentuado cede espaço a uma caminhada suave e plácida até o acampamento Ték. No primeiro dia, caminha-se só umas quatro horas. Apenas para despertar os músculos preguiçosos.

O cenário do acampamento Ték é esplendoroso: de um lado, o tepuy Kukenán, do outro, o intrigante Monte Roraima. Ainda para deleite do corpo, ali pertinho passa o refrescante rio Ték. Uma delícia tomar banho na hidromassagem natural que se forma numa pequenina queda d’água.

No segundo dia, o desnível é acentuado – de 1.100 m (acampamento Ték), chega-se a 1.870 m (acampamento base, no sopé do Roraima). O Kukenán e o Roraima são companheiros inseparáveis de toda a caminhada. Seguem sempre à vista. O início da trilha rasga pequenos morros de capim rasteiro, num leve sobe e desce. Uma surpresa: no alto de uma colina, uma pequena capela de pedra (em construção) compõe o cenário. Na savana, o sincretismo religioso é incipiente.

– Em razão da influência da igreja evangélica, na minha tribo arekuna, muitos não falam mais nosso idioma, por vergonha. Só espanhol. Os antigos também não contam mais para os jovens as histórias dos nossos ancestrais. Isso me preocupa. Tenho medo da nossa cultura se apagar da memória do nosso povo – lamenta Benetton, que nutre um sonho de escrever um livro sobre as histórias e lendas da sua tribo. Antes que se percam…

Logo após a capela, chega-se à primeira aventura da expedição: atravessar o rio Kukenán. Às vezes, quando há tromba d’água, o rio torna-se caudaloso. Nesses momentos, a opção é esperar o volume da água diminuir ou atravessar a remo. Isso, se o dono da canoa estiver por perto.

O Kukenán nasce no platô do tepuy homônimo. As chuvas torrenciais que caem no topo do tepuy avolumam o Salto Kukenán, provocando a elevação do nível do rio. Esse fenômeno é fruto da grande massa de ar úmido (vinda do Atlântico) e da alta radiação solar das paredes do tepuy, que formam densas nuvens orográficas.

Do rio, tem-se o visual belíssimo de La Ventana. Sombra e água fresca… E com direito a cerveja! Num casebre do lado do rio, o pai do Mário (um dos carregadores) vende a bebida para a alegria dos montanhistas perdidos no mato.

Passados os momentos idílicos no Kukenán, é hora de seguir: o majestoso Roraima chama. A subida é lenta e gradual. Adelante de los ojos? A paisagem de La Rampa e de um carro Maverick, que marca o ponto culminante do Monte Roraima. Chega-se ao acampamento-base ao cair da tarde. O pôr-do sol é um espetáculo à parte! Os tênues raios formam, nas paredes do Roraima, um lindo mosaico de pedras de múltiplos tons áureos. Um arco-íris complementa a obra de arte da natureza.

O terceiro dia é o gran finale. Uma subida íngreme (um desnível de mais de 800 m), conhecida como La Rampa, separa os aventureiros do almejado Roraima. A cada passo, as saliências do paredão se recrudescem, reafirmando a imponência do tepuy. A respiração ofegante diminui o ritmo da subida. Até encostar no paredão, a trilha percorre uma mata semi-aberta repleta de pequenas quedas d’água que brotam de fendas na rocha. Chegar ao paredão é uma festa! Todos querem tocá-lo.

O ponto crucial da rampa é a passagem por baixo da cachoeira Paso de Las Lagrimas. A pintura da queda d’água sobre o paredão é belíssima! Dá um friozinho na barriga caminhar embaixo dela. As águas escorrem pela trilha, formando córregos volumosos.

Alguns minutos mais e atingimos o portal do enigmático Roraima. As formas das rochas, a neblina, a chuva miúda dão uma sensação de ingresso num mundo desconhecido e distante. Os visitantes permanecem atônitos por alguns momentos… Logo, a alegria invade o peito e máquinas fotográficas registram o momento único. Os mais patriotas fazem fotos com a bandeira do Brasil.

As formações rochosas do platô causam impressões surrealistas. Figuras de animais, objetos, rostos são tracejados na nossa retina. A fauna e a flora do Roraima também são peculiares. Muitas espécies endêmicas habitam o tepuy. Algumas, com parentes na África (fato que corrobora a teoria do supercontinente Gondwana). Tem a minúscula rã de aspecto primitivo, a Oreophrynella, de cor negra para se camuflar entre as pedras; a bromélia de folhas verdes brilhantes e flor amarela, a Stegolepis guianensis; e a pequenina planta carnívora de cor vermelha, a Drosera roraimae, devoradora voraz dos insetinhos indefesos presos aos seus tentáculos.

Platô.

No platô, acampa-se em grutas formadas sob pedras superpostas – abrigos que são chamados de hotéis porque de fato protegem das intempéries roraimenses. Há oito deles ali.

Uma vez no alto do Roraima, a hora é de entregar-se à contemplação da natureza. Perambular pelas redondezas do Hotel Guácharo, ir até a caverna homônima e ao vale dos cânions, curtir a bela vista da savana e o descortinar da paisagem exótica do platô. Um verdadeiro mar de pedras – a ondulação das rochas lembra o balançar das ondas do mar. O mirante La Ventana, o vale de Los Cristales, Punto Triple (marco delimitador das fronteiras do Brasil, Venezuela e Guiana) e o lago Gladys – as riquezas do lugar são infinitas. Depois, a alma de quem desce o platô vai leve.

A conquista da Montanha de Cristal

O inglês Sir Walter Raleigh foi um dos primeiros a desbravar a região do Monte Roraima, em busca de tesouros perdidos, no final do século 16. As descobertas da expedição o levaram a escrever Montanha de Cristal. O livro, publicado em 1596, estimulou muitos exploradores europeus a se aventurar em longas expedições no século 19, atrás da Montanha de Cristal.

Robert Schomburgk, um dos primeiros a chegar ao sopé do Monte Roraima, em 1838, realizou uma importante coleção botânica, levantando a hipótese da existência de dinossauros e plantas pré-históricas no platô. Suspeita que atraiu a atenção da comunidade científica. 

Várias foram as tentativas frustradas de subir o Roraima. Ele chegou até a ser considerado inacessível. Entre os anos de 1879 e 1884, o ornitólogo inglês Henry Whitely, numa de suas diversas viagens, visualizou um caminho possível: La Rampa. Em dezembro de 1884, os ingleses Everard Im Thurn e Henry Perkins, seguindo a rota de Whitely, na companhia dos índios pemones, conseguiram ascender ao topo do Monte Roraima.

Todos os ângulos da savana

A aventura não pára no Monte Roraima. Para quem ainda tiver mais alguns dias, vale a pena rodar pela Grande Savana. Diversificados roteiros são oferecidos pelas agências locais: excursões off road, passeios a cachoeiras e a balneários de água doce, aluguel de bicicleta, rafting, sobrevôos em avionetas e helicópteros e muitos outros.

A cerca de 200 quilômetros de Santa Elena de Uairén, encontra-se o Salto Aponwao. Chegar até lá é uma mini-aventura. Ideal para quem gosta de só um pouquinho de adrenalina. Navega-se por uns vinte minutos numa canoa pelo rio homônino. Num piscar de olhos, as águas mansas transfiguram-se numa queda abrupta. É o Salto Aponwado, com 108 metros.

A canoa aporta a uns 500 metros da queda. Depois do ponto de parada, duas cordas de segurança atravessam o rio. O guia avisa: ”Se a canoa não parar, levantem os braços e se agarrem às cordas”. Dá um medo! Em seguida, 30 minutos de caminhada abajo e estupefação: o vigoroso Salto Aponwao adelante!

Para quem ainda tiver algumas verdinhas na carteira, por cerca de US$ 150 é possível sobrevoar o Salto Angel com 979 m – a maior queda do mundo. As imagens de lá revelam uma paisagem de tirar o fôlego.

Vôos fretados em avionetas levam pequenos grupos até o Auyan Tepuy, onde nasce o salto. Para garantir, é recomendável agendar o passeio antes da expedição ao Monte Roraima – que, por sinal, também pode ser sobrevoado de helicóptero. Outra boa opção para os menos propensos a longas aventuras isoladas da civilização.

Para brincar de Indiana Jones

Como ir

A Varig opera o único vôo diário que chega a Boa Vista na sessão coruja, após as 0h. http://www.varig.com.br

Pacotes

Ruta Salvaje – operadora local. Oferece expedições a partir de US$ 200. http://www.rutasalvaje.com

Bennettón Gomez – o guia indígena. canaparktourguide@yahoo.com Freeway Adventures – oferece expedições de nove dias a R$ 2.510 (parte terrestre). http://www.freeway.tur.br

Quando ir

Recomenda-se evitar o período chuvoso de maio a julho. Janeiro é o mês mais seco.

Na internet

http://www.lagransabana.com

Preparativos

Vacina de febre-amarela, no mínimo, dez dias antes da viagem. Também é recomendável tomar a vacina de hepatite A.

O que levar

Mochila de 30 a 50 litros (para os pertences pessoais) ou mochila-carga acima de 50 l (se preferir dispensar os serviços dos carregadores). Repelentes para afastar os puri-puris (mosquitinhos venezuelanos impertinentes). Filtro solar, boné e óculos de sol.

Camisas de tecidos finos e leves (dry fit) que sequem rápido. De preferência, com mangas compridas – protegem de raios solares e puri-puris. Calças de tecidos finos e leves (supplex, tactel etc). De preferência, as calças 2 em 1 (com zíper nas pernas), que viram bermudas. Casaco impermeável e corta-vento. Meias fofias. Bota de caminhada com solado aderente. Fita silvertape. A bota, às vezes, não agüenta o rojão e se desfaz. Aí, só a fita para salvar o solado e, principalmente, a sola do pé. Capa de chuva. Canivete, cantil e apito (no caso de se perder do guia). Lanternas e pilhas. Saco de dormir. E, para os corações verde-amarelos, a bandeira do Brasil.

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