Salar de Uyuni, Deserto do Sal

Imensidão branca

Bolívia: Uma aventura para chegar a Uyuni, o maior deserto de sal do planeta

Michelle Glória

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 09 de agosto de 2006.

UYUNI – BOLÍVIA. O Salar de Uyuni ou o Deserto do Sal, na Bolívia, é como sonhar de olhos abertos. O olhar se espanta diante de tamanha excentricidade. Paisagem inusitada para a memória visual brasileira, não se assemelha a nenhuma maravilha natural do nosso país. Face a face ao desconhecido, o olhar se surpreende. A pintura onírica extasia o coração.

Duas são as portas de entrada para o mundo surreal: La Paz ou Santa Cruz de la Sierra. Por La Paz, é possível dar uma paradinha em Oruro para conhecer outro deserto: o Salar de Coipasa, o segundo maior deserto de sal da América do Sul e terra dos índios chipayas, ameaçados de extinção. A segunda rota é Santa Cruz de la Sierra-Sucre-Potosí-Uyuni. O trecho de Santa Cruz a Sucre compensa fazer de avião. Os preços do vôo local são módicos e a viagem por terra é longa e desconfortável.

Sucre é famosa pela alvura de sua arquitetura. Igrejas e casarões brancos compõem o cenário urbano da capital oficial da Bolívia – a sede do governo, de fato, está em La Paz. Declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1991, a cidade vale uma visita de dois dias.

Para quem tiver pouco tempo, a opção é desembarcar em Sucre e pegar um táxi coletivo direto para Potosí. Os motoristas têm o hábito de pescar os clientes no saguão do aeroporto. A viagem de duas horas já rende um belo passeio. Só cuidado com o motorista. A estrada traceja o altiplano boliviano com curvas sinuosas e as ribanceiras estão logo abajo.

Potosí, incrustada nas encostas de uma depressão geográfica do altiplano boliviano, é uma cidade de altos e baixos. Tornou-se conhecida por conta das minas de prata do Cerro Rico – uma montanha majestosa e onipresente, incorporada ao cenário urbano – e por ter feito história – foi palco de manifestações populares, o que lhe rendeu a alcunha de Cidade das Dinamites, explosiva tanto nas minas como nas ruas.

Imergir nas minas do Cerro Rico é um convite à reflexão. Submersos nas cerca de cinco mil minas do Cerro Rico, adolescentes e adultos trabalham até doze horas por dia. A atividade mineradora é explorada por uma cooperativa. A idade mínima para o trabalho é de 12 anos. A idade máxima chega até cerca de 40 (quando as forças dos mineradores já estão no fim). Neste cenário, inevitável o questionamento: eles tornam-se mineradores por opção ou por falta de opção?

Vale a pena perambular pelo Centro Histórico de Potosí. É um mergulho no tempo. Uma história a céu aberto. História oral, contada pelo povo. O monumento mais famoso é a Casa de La Moneda. A construção era uma fundição de prata na época colonial. Hoje é um museu. Pinturas do barroco andino, moedas e artefatos da América espanhola fazem parte da exposição permanente. As visitas são guiadas e duram cerca de duas horas.

Museu e lembranças: tudo de sal

Hotel de Sal.

O Salar de Uyuni é o maior deserto de sal do planeta, com 12 mil km². A evaporação das águas durante milhares de anos deixou cravada no solo uma espessa camada de sal, que descortina um infinito tapete branco. No período de estiagem, que vai de maio a novembro, o solo seco forma lajotas hexagonais de sal que lembram uma colméia gigante. Na época das chuvas, de dezembro a janeiro, o salar inundado é um espelho a céu aberto, que reflete as nuvens do céu. Fica difícil definir o que é terra, o que é ar.

A época propícia para fazer a travessia é fora do verão. O passeio ao salar é feito em jipes 4×4, mas as chuvas fortes da estação podem cancelar o passeio. As operadoras locais oferecem programas de um dia, bate-e-volta, e três dias, para quem se aventura na travessia do deserto em direção a São Pedro de Atacama, no Chile.

A travessia começa pela manhã bem cedo. A primeira parada é no Museu do Sal. Esculturas de llamas e outras peças de sal compõe o acervo. Na entrada do museu, senhoras bolivianas vendem suvenires de sal e cactus. Ao levar para a casa, não se esqueça que não se pode lavar o artefato. O suvenir de sal se desfaz na água.

O motorista liga o motor. Trafega algumas horas em linha reta no meio do nada, apenas a alva superfície de sal e o horizonte sem fim. A próxima parada é o Hotel de Sal. Toda a mobília (camas, mesas, sofás) é feita do cristalino branco.

Um dos pontos altos do passeio vem em seguida: a Isla del Pescado, um monte de pedras solitário no tapete branco, repleto de cactos gigantes com até 12 metros de altura. Vale queimar alguns rolos de filme ou deixar alguns cards cheios Depois do tour pelos cactus gigantes, no sopé da ilha, um saboroso almoço preparado pelo motorista aguarda o viajante. Terminada a refeição, é hora de partir para o fim do dia e pernoitar em uma hospedagem rústica ao lado do salar. 

Belezas a 4 mil metros de altitude

Bolívia: Os lagos vulcânicos de Potosí valem um mergulho em suas águas mornas. Já Uyuni parece um cenário retirado de western ianque, mas com legítimos personagens latino-americanos

A elevada altitude de Potosí, acima dos 4 mil metros, pode causar náuseas e dores de cabeça, primeiros sintomas do soroche. Para evitá-lo, é bom beber muita água. Se o mal-estar persistir, uma opção é recorrer aos costumes locais: mascar folha de coca e tomar chá de coca. E para desmistificar: nenhum dos dois produz efeitos alucinógenos.

Gratifica muito também dar uma rodopiada nos arredores de Potosí. A 22 km do perímetro urbano, está a Laguna Tarapaya, um lago formado por águas sulfurosas verde-musgo do vulcão adormecido. O lago é a boca de um vulcão extinto. Indescritível dar umas braçadas naquelas águas mornas e densas. É como se conectar com o centro da Terra. Segundo o vigilante da laguna, a cratera é sem fim. O passeio leva uma manhã.

O trajeto de Potosí a Uyuni é um poço de surpresas com direito a uma certa dose de adrenalina. A estrada de terra serpenteia as colinas íngremes do altiplano boliviano – um planalto de 800 km de comprimento por 129 km de largura, com altitude acima dos 3.500 m, que se estende do Lago Titicaca (norte da Bolívia, fronteira com o Peru) até Uyuni (sul da Bolívia, fronteira com Chile e Argentina). Os motores e freios dos ônibus, normalmente em condições precárias, muitas vezes deixam de funcionar. Aí, só com espírito corajoso e aventureiro a la Indiana Jones.

Sentei ao lado do motorista. O motor ameaçou parar algumas vezes. O auxiliar levantava o capô e dava, literalmente, corda no motor. A fumaça vinha toda no meu rosto. Viajar na Bolívia é assim mesmo. Para quem gosta de adrenalina, um prato cheio. A viagem dura cerca de sete horas. Os ônibus saem pela manhã de Potosí e chegam ao cair da tarde em Uyuni.

Perdida na imensidão do deserto, Uyuni parece isolada do resto do país. O aeroporto mais perto ficou para trás em Sucre, a 9 horas de viagem. A próxima saída por avião só em Calama, no Chile, distante 2 mil km.

Uyuni lembra uma cidadezinha do faroeste americano. Em vez de apaches e cowboys, quechuas e aimaras – campesinos típicos do altiplano boliviano – perambulam por suas ruas. Quinquilharias e iguarias são vendidas no meio da via principal. Uma boa pedida é experimentar a salteña – salgado bem temperado de carne ou frango, com legumes picados – acompanhada da Paceña, a cerveja boliviana.

No fim da rua principal está o cemitério de trens. Vale a pena uma visita, principalmente para quem gosta de fotografar. A próxima parada é o Salar de Uyuni. Antes de partir para o deserto, é bom levar medicamentos e quinquilharias de uso pessoal. A travessia é longa e erma.

Vale a pena perambular pelo Centro Histórico de Potosí. É um mergulho no tempo. Uma história a céu aberto. História oral, contada pelo povo. O monumento mais famoso é a Casa de La Moneda. A construção era uma fundição de prata na época colonial. Hoje é um museu. Pinturas do barroco andino, moedas e artefatos da América espanhola fazem parte da exposição permanente. As visitas são guiadas e duram cerca de duas horas. 

Flamingos e gêiseres no caminho

Árbol de Piedra.

No segundo dia, é hora de atravessar o Desierto de Siloli, formado por esculturas rochosas de lavas de vulcão insculpidas pelo vento. O mais conhecido monumento natural é o Árbol de Piedra. Ao cair da tarde, chega-se à plácida Laguna Colorada, um santuário dos flamingos. É permitido caminhar às suas margens e apreciar as aves bem de perto.

No terceiro dia, a ordem é acordar bem cedo, por volta das quatro da madrugada, para apreciar os gêiseres em ação, lançando gases sulforosos em alta temperatura. É bom estar bem agasalhado, porque o frio de zero grau é cortante. A visão distante, ainda no crepúsculo, do Geiser Sol de Manana entristece, lembra a bomba de Hiroshima, mas impressiona. É possível caminhar perto dos gêiseres, com cuidado para não se queimar com os esguichos de enxofre.

A poucos minutos dali, é hora de tomar o café da manhã à beira de piscinas naturais de águas termais. Servido o café, o motorista parte para o próximo destino: as Rocas de Dalí.

A paisagem desértica das Rocas assemelha-se à mais famosa obra de Salvador Dalí: A persistência da memória. “No lo sé. No lo creo….”, responde o motorista ao ser indagado se Dalí estivera na região pintando aquele cenário. “Creo que es porque si parece con una pintura de él”, completa. Dalí, de fato, não esteve ali. Mas uma coisa é certa: esteve no mundo dos sonhos, no inconsciente.

Ainda na Bolívia, a última parada é na Laguna Verde, aos pés do vulcão Licancabur, que, dependendo dos raios do sol, se reflete em suas águas verde-esmeralda, formando uma graciosa fotografia. Alguns minutos de deleite e o motorista dá a partida. É hora de seguir viagem rumo a São Pedro do Atacama. O altiplano boliviano está entre os dez lugares mais bonitos do mundo, segundo mochileiros de carteirinha. E a paisagem é, de fato, arrebatadora.

Dicas:

– Leve roupas leves e pesadas. No altiplano boliviano, com a altitude acima dos 4 mil metros, faz muito frio. Os ponteiros registram zero grau e, às vezes, até negativo.

– Para a mochila não pesar tanto, deixe de lado a estética e seja prático. Leve só o que for útil. Camisas de tecido tipo dry-fit, que seca rápido. De preferência, de mangas compridas, para proteger dos raios solares.

– Leve calças de tecido fino e leve (suplex, tactel). Além de confortáveis, secam rápido. Opte pelas “dois em um”, as que têm zíper na altura dos joelhos e viram bermudas.

– Leve também roupas impermeáveis (capas de chuva, anorak etc).

– Bonés, óculos de sol, protetor solar são indispensáveis.

– Fundamental levar um saco de dormir zero grau para as noites nos refúgios rústicos do deserto.

– Tente colocar tudo em uma única mochila-carga para não ficar cheio de penduricalhos no pescoço. Um mochila pequena só para perambular pelas ruas de Potosí com máquina fotográfica e otras cositas más.

– Para os alérgicos. Quem sofre de rinite, é bom levar seus medicamentos. A mucosa se irrita com tanta poeira.

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