Trekking no Aconcágua

Topo das Américas

Não é preciso ser alpinista profissional para percorrer os caminhos que levam ao ponto mais alto do continente. Confira uma aventura pelo Aconcágua a uma altitude suportável para iniciantes. 

Michelle Glória* 

Publicado no Jornal do Brasil de 20 de setembro de 2006.

Fôlego extra na subida

ACONCÁGUA: Trekking em três, sete ou 20 dias leva desde montanhistas iniciantes até mais experientes a desvendarem a imponente montanha sul-americana, encravada entre Chile e Argentina

ACONCÁGUA – ARGENTINA. Para quem almeja um dia chegar ao teto do mundo, o Everest, um bom treino é subir o Aconcágua, o topo das Américas, com 6.962 metros, do ladinho de casa. Aliás, verdade seja dita, chamar de treinamento a ascensão ao topo do continente é eufemismo. A subida até o cume do Aconcágua é árdua e extenuante. Além de um bom condicionamento físico, requer experiência no esporte. Mas para aqueles menos experts, o trekking abaixo de 5 mil metros é uma boa pedida para conhecer um pouco da realidade de alta montanha.

A porta de entrada ao Aconcágua é Mendoza, na Argentina, a 1.099 km de Buenos Aires e 402 km de Santiago do Chile. O Parque Aconcágua encontra-se a 180 km a oeste de Mendoza. Em duas horas de viagem serpenteando as encostas das belas formações rochosas dos Andes, chega-se à entrada do parque, na Laguna Horcones.

Em dia ensolarado e sem nuvens no topo, avista-se todo o contorno do Aconcágua. Mesmo de longe, é possível sentir a imponência da montanha e imaginar as dificuldades que os andinistas superam ao driblar a força da natureza para alcançar o cume. A oferta de operadores que fazem o trajeto Mendoza-Aconcágua é vasta.

Uma opção para conhecer a região sem fazer o trekking é o passeio Alta Montanha, de um dia. O tour inclui visita ao Valle de Uspallata, onde foi filmado Sete anos no Tibet, a Puente del Inca, hoje ruínas de um hotel de águas termais que no passado foi muito procurado para tratamento de doenças reumáticas, e a Laguna Horcones, o mirante do Aconcágua. O passeio termina em uma vila no sopé do monumento Cristo Redentor com um suculento almoço, pago à parte. Quem optar pelo trekking não precisa contratar esse tour, pois os pontos de visitação já estão na rota.

A temporada no Aconcágua vai de 15 de novembro a 31 de março. A melhor época para o esporte é na alta temporada de 15 de dezembro a 31 de janeiro, quando as chances de encontrar bom tempo aumentam.

Tempo da viagem é opcional

As agências especializadas de Mendonza oferecem dois pacotes de trekking: um de três dias e outro de sete. O ápice do trekking curto é a Plaza Francia, com 4.200 metros. No longo, atinge-se a altitude de 4.300 m em Plaza de Mulas – acampamento-base para os andinistas que tentarão o cume. A excursão ao topo do Aconcágua dura de 11 a 20 dias. Para tal, é necessário, além de preparo físico, experiência em alta montanha. Não convém subestimar a empreitada. Já o trekking de três dias pode ser feito por iniciantes.

O serviço de guia é opcional. A vantagem de contratar as agências é não se preocupar com o preparo da comida, nem com a montagem do acampamento. Para quem for dispensar esses serviços, a alternativa é contratar mulas para carregar os equipamentos e suprimentos. Os animais conseguem ir até Plaza de Mulas – último acampamento do trekking.

O permiso para o trekking é retirado junto à administração do Parque, no centro de Mendoza. Os preços variam de acordo com os dias de permanência no parque: três, sete e 20 dias. Os equipamentos para alta montanha também podem ser alugados no centro em lojas especializadas – roupas primeira e segunda peles, anorak, bastões de caminhada, saco de dormir etc.

Adaptação em Los Penitentes

Como Mendoza encontra-se a 760 metros acima do nível do mar, o ideal para uma boa aclimatação é passar, pelo menos, uma noite em Los Penitentes, a 2.580 m de altitude, que funciona como centro de esqui no inverno. Uma boa aclimatação requer corpo bem hidratado.

Os primeiros sintomas do mal da montanha aparecem de quatro a oito horas depois de se chegar a altitudes superiores a 3.500 metros. Dor de cabeça constante, insônia, perda de apetite, náuseas, dificuldade respiratória, tosse seca, vertigens e inchação são comuns. Quando os sintomas aparecem, o recomendável é descer a uma altitude inferior e voltar a subir lentamente para facilitar a aclimatação. Se persistirem, abandone a excursão.

O trecho do primeiro dia é comum a todas as excursões. A caminhada começa em Laguna Horcones e termina em Confluencia, a 3.350 metros, onde se acampa na primeira noite. O corpo sobe naturalmente devagar para não fatigar de pronto. Alguns já dão sintomas que não vão agüentar a estirada mas o guia experiente incentiva-os a continuar.

As operadoras já possuem acampamento fixo em Confluencia. O dormitório é coletivo. O frio associado ao cansaço físico despertam a fome logo ao cair da tarde. A comida é simples e suficiente. Uma sopa de entrada, um prato quente e sobremesa revigoram o corpo.

A perigosa Parede Sul

No segundo dia, o destino é a Plaza Francia, a 4.200 metros, que serve de acampamento base para os andinistas que tentarão o cume pela face sul do Aconcágua, a mais difícil e perigosa, que tornou-se conhecida após a morte de Mozart Catão, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos, pegos por uma avalanche na noite de 3 de fevereiro de 1998.

Até Plaza Francia são cinco horas de caminhada pesada e 900 m de desnível a serem vencidos num dia. A trilha recorta as encostas das montanhas andinas. O terreno é árido, espaçado com trechos verdes de vegetação baixa. A última hora da caminhada é em um platô margeado por um extenso glaciar que começa no sopé do Aconcágua.

O visual da parede sul é plácido. Nem parece um celeiro de avalanches. Mas o guia logo aponta os paredões de neve que os alpinistas têm de ultrapassar. Curte-se aquela paisagem por alguns minutos. Logo é hora de voltar para Confluencia. A temperatura cai rápido quando o sol se põe entre as montanhas.

No dia seguinte, o grupo do trekking de três dias retorna para a entrada do parque. Os participantes do trekking longo tiram um dia de preguiça, permanecem em Confluencia descansando o corpo.

– A caminhada é puxada. Caminhamos oito horas numa planície desértica – adverte a montanhista Yuki Matsumoto, 36 anos, japonesa radicada no Brasil, sobre a trilha de Confluencia a Plaza de Mulas. – O pior trecho está no final. Nas últimas duas horas, há uma subida em ziguezague bem íngreme. Vi várias mulas mortas caídas.

A Plaza de Mulas, a 4.300 metros, é o último destino do trekking e o principal ponto de apoio para quem fará o cume.

– Estava radiante antes, durante e depois do trekking. Fazer o Aconcágua é o sonho de qualquer montanhista – enaltece Yuki. – Mesmo não fazendo o cume, deu para sentir um pouco da emoção de estar na alta montanha. Vale a pena passar uns dias em Plaza de Mulas para interagir com os andinistas e talvez até fazer um trecho da subida para o cume.

Depois de tanto esforço, a pedida é relaxar e comemorar a vitória nas vinícolas de Mendoza, a terra dos vinhos argentinos. As agências locais oferecem roteiros de degustação a bodegas famosas. A dica é contratar um passeio com almoço incluído. Normalmente, é servido um verdadeiro banquete acompanhado de saborosos vinhos argentinos.

*Michelle Glória é montanhista do Centro Excursionista Brasileiro.

Quem leva
Campo Base Travel & Adventure.
E-mail: info@hostelcampo base.com.ar
Tel.: 54 (261) 425-5511

Na internet
http://www.mt-aconcagua.com
http://www.aconcagua.men doza.gov.ar
http://www.aconcagua.com.ar

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