Campo base do Everest

Everest: Aventura para Amadores

Michelle Glória – Especial para O GLOBO

Matéria publicada no jornal O Globo de 8 de dezembro de 2011. Chegar perto do topo do mundo é um sonho possível. E uma experiência de vida inesquecível. Ainda que seja uma dura jornada que pode demorar mais de duas semanas, os aventureiros de hoje dispõem de comodidades impensáveis em 1953, quando o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay conquistaram o Everest. Atualmente, com empresas que cuidam de toda a logística, está mais fácil alcançar o campo base, onde montanhistas profissionais passam cerca de dois meses se aclimatando para tentar chegar até o cume, a 8.848 metros de altitude. As melhores épocas para uma viagem como essa são de março a maio, na primavera do Hemisfério Norte, e de setembro a dezembro, no outono. Há agências que levam milhares de pessoas por ano ao Everest e organizam tudo, desde a reserva de hotel em Katmandu, a compra da passagem aérea até Lukla – onde começa, de fato, a expedição turística – e o pagamento de taxas governamentais até o transporte das bagagens e o preparo da comida durante os dias na trilha. Aos viajantes, basta caminhar muito. Para se conquistar parte da Sagarmatha (deusa do céu ou testa do céu), como chamam os nepaleses, ou da Chomolungma (divina mãe do Universo), como a montanha é conhecida pelos tibetanos, é preciso ter disposição e um bom preparo físico. A subida até o acampamento base, a 5.364 metros de altitude, e a descida são feitas durante 16 dias de Aventura temperada pelo contato com a população, seus trajes, suas comidas e bebidas típicas, e a observação de cenários naturais fantásticos, celestiais. Para explorar a paisagem o melhor é pegar o caminho mais longo, que também é o mais bonito, passando pelos Lagos Gokyo. Foi o que fizemos.

Em cinco dias, 4.470 metros de altitude e muitos picos nevados

Katmandu, a capital do Nepal, a 1.300 metros de altitude, é a porta de entrada para a Aventura na montanha. Os serviços das agências que vendem pacotes para o Everest, como a Himalayan Glacier Trekking, geralmente começam aqui. Duas noites na cidade é o tempo ideal para visitor os pontos turísticos do Vale de Katmandu e finalizar os preparativos para o trekking, verificando todo o equipamento com o guia. Conhecer a Durbar Square e fazer um delicioso passeio de riquixá pelas ruas da área turística de Thamel são programas imperdíveis. Em Durbar Square, fazem sucesso os entalhes ao redor do templo Jagannath que mostram as posições do Kama Sutra. E das varandas da torre Basantapur, observa-se do alto o dia a dia nas ruas de Katmandu.

Estupas.

No Vale de Katmandu, ficam as estupas Swayambhunath e Bouddhanath, essa a maior do Nepal. Quem chega ao cair da tarde ao templo budista, observa parte da agitação dos turistas que vieram durante o dia e a atmosfera sagrada da noite, quando dezenas de peregrinos caminham em volta do monumento religioso, fazendo suas orações e prostrações – ato de libertação da negatividade da mente e de reverência a Buda. Depois de turistar por Katmandu, havia chegado a hora de partir para a montanha. No primeiro dia de caminhada, acordei com um frio na barriga. A adrenalina começou no aeroporto, ao embarcar num avião pequeno. Em 40 minutos de voo, chegamos a Lukla, povoado a 2.840 metros de altitude, ponto de partida do trekking. O visual deslumbrante dos picos nevados do Himalaia cortando as nuvens faz esquecer o medo. Desembarquei eufórica. O primeiro dia é leve, com três horas de caminhada até o vilarejo Phakding, a 2.610 metros, onde pernoitamos. Chegamos por volta de meio-dia e descansamos, preparando o corpo para seguir a altitudes mais elevadas. Mais dois dias e chegamos a Namche. A 3.440 metros acima do nível do mar, é o maior vilarejo do trajeto, com cybercafés, sinucas e lojas de souvenirs. Passamos dois noites para aclimatar o corpo e evitar o chamado “mal da montanha”. É preciso subir devagar, beber muita água, fazer uma boa alimentação e respeitar os sinais. Se os sintomas do “mal da montanha” aparecem (dor de cabeça, náusea, vômito, perda de apetite), a recomendação é descer.

Namche a 3.440 metros de altitude.

Partindo de Namche, a jornada é ingreme. Vencida a colina, a trilha plana serpenteia pela encosta de um vale – sem muito esforço, puro deleite. Dia ensolarado, as pernas andavam sozinhas, inebriadas pelo cenário dos sonhos: picos nevados ao longo da trilha emoldurando a paisagem. No trajeto, uma estupa homenageia o Sherpa Tenzing Norgay e todos os sherpas do Everest, os verdadeiros tigres da neve. Com céu limpo, avistamos no fim do vale o pico da montanha. Dormimos na bucólica vila Dole, a 4.110 metros, de ambiente rustic e clima rural. Há poucas pessoas e alojamentos, começamos a entrar na solitude da montanha. Muitos turistas optam pelo percurso via Tengboche, direto ao acampamento base do Everest. Fomos pela trilha via Lagos Gokyo. É mais longa, mas o visual compensa. Na manhã seguinte, caminhada leve de três horas até Maccherma, a 4.470 metros acima do nível do mar. Outro dia prazeroso, com uma subida suave roadeada por montanhas. Os picos de neve eterna nos acompanham o tempo todo, para deleite visual. No quinto dia de caminhada, o corpo dá sinais de fadiga. Em Maccherma, um posto médico presta o primeiro atendimento às pessoas acometidas do “mal de montanha”. Mesmo sem os sintomas, fui até lá para medir o percentual de oxigênio no sangue: 90%. Segundo a voluntária que me atendeu, uma ótima taxa para 4.470 metros de altitude. Senti-me contente e cheia de coragem. O cansaço havia sumido.

Glaciar e iaques em paisagem surrealista

Glaciar Ngozumba.

No sexto dia estávamos prontos para avançar 400 metros de altitude, entrando cada vez mais nas terras remotas do Himalaia, o que aumentava o nível de adrenalina. A partir deste ponto, o resgate de helicóptero torna-se mais difícil – as condições climáticas a cinco mil metros nem sempre permitem o acesso da aeronave. Apesar da leve tensão, o dia revelou-se uma grata surpresa, com uma caminhada aprazível margeada pelo rio Dudh Koshi. No fim da jornada, um presente: o vale dos Lagos Gokyo. O visual mágico de suas águas plácidas naquele profundo silêncio da montanha é de tocar a alma.

Lago Gokyo.

Passamos dois dias às margens do terceiro Lago Gokyo, a 4.740 metros. Os mais entusiasmados também aproveitam para subir o pico Gokyo, a 5.360 metros. O cenário é belíssimo. Uma dica: vá à margem oposta do lago. A trilha margeia o sopé do pico Gokyo. Com sorte, é possível apreciar iaques selvagens – animais da família do touro, com grossa pelagem. Não são dóceis e podem ser agressivos. Por isso, não se deve chegar muito perto deles. Já estávamos no oitavo dia de nossa expedição e o espetacular glaciar Ngozumba dominava a paisagem. Cruzar o glaciar foi como estar no cenário desértico das pinturas de Salvador Dali. Passaria o dia inteiro ali contemplando aquela paisagem quase surrealista – um convite à viagem interior.

Iaques.

No dia seguinte saímos bem cedo de Thangnag, a 4.700 metros, para atravessar sem pressa Cho La Pass, a 5.368 metros. É o trecho mais técnico do trekking, com uma caminhada íngreme sobre a neve, que dificulta a passagem. Para uma subida segura, o ideal é usar bastões e crampons – agarras sob o solado das botas, como ferraduras, para os pés se fixarem na neve. Muitos turistas optam pela trilha via Tengboche principalmente para evitar este trecho. Meu conselho é fazê-lo com calma, concentrado em cada passo. Sem muita experiência em neve, tive a sensação de escorregar duas vezes. Mas foi só o susto. Confesso que cheguei lá em cima com a adrenalina a mil. E comemorei muito.

Missão cumprida com muita simpatia

Dois dias de caminhada e chegamos a Gorakshep, a 5.240 metros de altitude- último refúgio antes do acampamento base do Everest. A expectativa aumentava e o coração palpitava. O trecho final foi leve, com o majestoso glaciar Khumbu a nos acompanhar como um gigante adormecido. De longe já avistávamos o campo base: pontinhos amarelos surgiam no cenário e iam se tornando mais nítidos à medida que avançávamos. Eram as barracas do acampamento. A emoção aumentava à medida que chegávamos mais perto do coração da montanha. Há uma frase célebre de George Mallory, quando lhe perguntaram “Por que subir o Everest?”. Sua resposta: “Porque ele está lá”. O coração dispara ao alcançarmos o acampamento base, a 5.364 metros. Chegar “quase lá” foi o suprassumo da realização pessoal, um momento único para guardar no baú de memórias.

Campo Base ao longe.

Vale do Campo Base.

Na volta do acampamento base, encontrei dois russos que estiveram no cume. Quando assisti ao vídeo da conquista, com o infinito mar de montanhas e o céu azulado do topo do Everest, imaginei a adrenalina na reta final de ataque ao cume. Beber da aventura saciou o meu desejo. Escalar o Everest é um desafio para poucos, para tigres. Antes de descer, passamos pelo último ponto alto do trekking: o pico Kala Patthar, a 5.550 metros. Nevava ao amanhecer, o que nos impediu de subir e apreciar o visual do alto. Mas adorei ver os flocos de neve caírem, tudo ficar branquinho, envolvendo a montanha em clima de mistério. Nos próximos quatro dias seguimos descendo, via Tengboche, celebrando a conquista com saudades da aventura. Abaixo dos quatro mil metros, a vida volta a pulsar. Crianças seguem para a escola. E monges, para os monastérios budistas. Pastores conduzem seus pequenos rebanhos de iaques. Passamos novamente por Namche, agora em dia de feira. Lá vendem de tudo, de panelas a iguarias. Pudemos saborear mais um pouco da vida do Himalaia. Para fechar com chave de ouro, uma simpática senhora me cumprimentou: “Namaste”. Para eles significa um ato de humildade em reverência a outro ser humano, que quer dizer: “eu reconheço e respeito o Deus que existe em você”. Senti-me abençoada. Namaste para vocês também.

Serviços

Classificação do trekking: pesado. O que levar: mochila de 50 L e capa filtro solar, boné e óculos de neve roupas térmicas (segunda pele) casaco fleece casaco impermeável (anorak) camisas e calças de tecido respirável 2 pares de luvas gorro e balaclava 3 a 4 pares de meias botas impermeável e resistente a baixas temperaturas máquina fotográfica e baterias extras lenços umedecidos para bebê (Às vezes, está tão frio e a água morna, que o banho é a base de lenços umedecidos. Banho de água quente é pago à parte nos alojamentos, de 3 a 7 dólares) Nota: Saco de dormir, jaqueta, próprios para extremas temperaturas, bastões e crampons são fornecidos pela agência de turismo. Quem leva: www.himalayanglacier.com Quando ir: duas temporadas por ano, de fevereiro a abril, de setembro a novembro. Quanto custa: 1600 dólares. Resgate de helicóptero: 1 hora de voo em torno de 2.500 dólares. www.fishtailair.com, www.airdynasty.com

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