Um dia em Khayelitsha Township

Depois da calorosa recepção das crianças em Langa township, seguimos nossa visita. Nossa próxima parada foi num shopping, o qual Monica fez questão de nos apresentar, motivo de orgulho, símbolo de progresso, a promessa de um futuro promissor. Em suas paredes, no lado externo do shopping, uma mensagem de esperança:

“O mundo é o meu playground, eu não estou mais cerceado por limites humanos. Minha terra é minha tela. Meus passos são a pintura, na qual em cada passo eu estou aprendendo.  Eu sou um artista capturando a verdade da vida, com o desejo de construir a mudança”.

Hope.

Voltando para o carro, Hope, filha de Monica, me perguntou: “No Brasil, também tem casas como estas daqui?”. Eu disse: “Sim”. Ela continuou: “E tem pessoas negras também como aqui?”. Eu disse: “Sim. Minha bizavó, por exemplo, era negra”. Hope fez um olhar de surpresa, por eu ser “branca”. Eu expliquei: “No Brasil, nós somos miscigenados”. Hope ficou contente com a minha resposta. Os coloured (pessoas de pele morena) representam cerca de 9% da população sul-africana. Os negros somam cerca de 80%. Os brancos,  9%. Os indianos e asiáticos, 2%. Miscigenação é algo incomum na África do Sul.

Monica nos convidou para conhecer sua casa. Quando chegamos, havia um aglomerado de pessoas na rua, estava sendo encenado um teatro sobre abusos sexuais. A menina chorava, não queria manter relações sexuais com aquele homem. Os atores usavam uma camiseta de HIV positivo. Segundo dados da Aids Foundation South Africa, 17,5 % da população está infectada pelo vírus, sendo as mulheres o maior grupo infectado. A África do Sul está entre os 5 países do mundo com as maiores taxas de HIV e é o primeiro país do mundo com o maior número de pessoas infectadas, cerca de 5,3 milhões. A epidemia da AIDS na África do Sul é a mais severa do mundo.

Chovia muito. E logo entramos na casa de Monica. A visita foi rápida. A casa ainda estava em construção. Monica mora em uma das casas de alvenaria que está sendo construída pelo governo. Antes morava numa casa de latão e madeira.

Monica.

Em seguida, Monica nos levou para conhecer a curandeira, chamado na cultural local de Sangoma. A Sangoma pratica medicina natural à base de ervas e, também, dá aconselhamentos. A prática é passada de geração para geração. O ensinamento dura anos até a jovem aprendiz tornar-se Sangoma. Chegando lá, a Sangoma local ensinava seus segredos de cura a um jovem rapaz. Uma exceção, pois na tradição os ensinamentos são passados para outra mulher, que se torna a curandeira.

Acabamos participando de um ritual. As mulheres precisam usar saia para poder participar. Enrolaram uma toalha em mim e eu dancei junto com as mulheres. Antes de irmos embora, eu reclamei da dor no meu joelho direito, fruto da queda no brinquedo em Langa. A Sangoma ofereceu-se para me curar. Eu aceitei sua hospitalidade e sentei no meio da roda. Ela acendeu um prato com ervas e, entoando músicas ancestrais, massageou o meu joelho. Voltei para Cidade do Cabo na expectativa do alívio da dor.

Sangoma.

Meu amigo espanhol, o jornalista Javier Bandoli, escreveu  a matéria “Miséria e a esperança no gueto em Khayelitsa” sobre  a nossa visita em Langa, Guguletu e Khayelitsha, para o jornal El Mundo. O título da matéria já traduz nosso sentimento ao visitar a casa daquela gente…

Meu joelho.

Rua da Monica. Casas de alvenaria construídas pelo governo.

Esteban, Javier, Carles, Cíntia e eu.

Mais fotos de Khayelitsa:

Calorosa recepção das crianças de Langa Township

Eu e quatros amigos, a guia de  turismo, brasileira, Cíntia César, os espanhóis, Carles Solis, fotógrafo,  Javier Bandoli, jornalista, e Esteban, outro viajante backpacker, que está na estrada há 2 anos, fomos conhecer de perto um pouco a realidade das townships de Cape Town. Nossos anfitriões foram Mônica e Martin, moradores de Khayelitsha, a segunda maior township da África do Sul, depois de Soweto. Mônica trabalhava no serviço de limpeza de uma escola de inglês. Martin, seu irmão, é taxista nas townships.

Martin, Mônica e suas filhas adolescentes, Sinethemba (que significa “esperança” em Xhosa) e Asanda (que significa “ainda crescendo” em Xhosa), foram nos buscar no centro de Cape Town. Saímos às 8 h da manhã em direção às townships.

Martin, embora taxista, perdeu-se várias vezes no centro de Cape Town. Logo percebemos que ele não circula pela região oceânica da cidade.

Diversamente das favelas cariocas, que têm suas origens no êxodo rural, as townships foram criadas durante o apartheid social, para separar os negros dos brancos. Afastadas do centro da cidade, foram os locais destinados à moradia dos negros.

Desde o fim do regime de apartheid social em 1994, não existem impedimentos legais cerceando o direito de ir e vir dos negros. Hoje, a barreira (visível) que os segrega é a desigualdade social, embora ainda se perceba tensão racial (invisível) nas ruas da Cidade do Cabo.

As condições precárias de moradia, infra-estrutura, não abalam a alegria de viver e amorosidade dessas pessoas. Já na saída, dentro do carro, Sinethemba, a quem eu preferi chamar  Hope, “esperança” (impossível pronunciar seu nome em Xhosa), foi logo puxando assunto comigo, ensinando-me algumas palavras em Xhosa, com uma satisfação incontestável.

A primeira parada do carro, numa praça em Langa Township, foi emocionante. Hope pegou minhas mãos, convidando-me a brincar, levou-me até a gangorra. Adorei. Voltei a ser criança. Sendo mais pesada, diverti-me deixando Hope congelada no ar, para desespero dela (risos). Ela dava muitos gritos (risos).

Mudamos de brinquedo. Hope me levou até uma roda giratória, repleta de crianças. Sentei no banco e começamos a girar. O brinquedo pegou velocidade e, como não tenho mais cinco anos de idade, escorreguei. Girei algumas voltas pendurada de cabeça para baixo, segurando-me só com as pernas. As crianças continuaram girando. Como são crianças, devem ter achado que eu estava me divertindo ali… de cabeça para baixo (risos). Para minha sorte, os adultos perceberam e me acudiram. Acho que os tendões dos meus joelhos não resistiriam a mais algumas voltas…

Eu sei que depois disto, as crianças pularam no meu pescoço e queriam brincar mais. Foi o máximo! Emocionei-me muito com todas aquelas crianças no meu pescoço, me puxando de um lado para o outro. Um momento mágico. De muito carinho. Pura alegria. Calorosa recepção. 🙂

Mais fotos de Langa:

Cape Town International Jazz Festival

Neste fim de semana, rolou a 11ª edição do Cape Town International Jazz Festival. A abertura aconteceu no Greenmarket Square na última quinta-feira. Este foi o primeiro evento popular e ao ar livre que eu presenciei desde que cheguei. Estava ansiosa por conhecer as manifestações populares.

Greenmarket Square.

Greenmarket Square.

O jazz representa para os negros sul-africanos o mesmo que o samba para os afro-brasileiros. É música de raiz. Expressão Popular. A praça Greenmarket estava repleta de black people. Cerca de 80% do público presente.

Isso, chama atenção aqui, porque é incomum ver os negros sul-africanos divertindo-se nos bares, restaurantes da parte oceânica da cidade. Somente em bairros afastados da área central, no subúrbio e periferia, eu encontrei manifestações da cultura negra.

Um dos meus interesses na África do Sul é conhecer um pouco a cultura negra sul-africana, o modo de vida e pensamento da população negra depois do fim do apartheid social. Não sei se em tão pouco tempo conseguirei adentrar na cultura local.

Participar do Cape Town International Jazz Festival foi um ótimo começo, para aprofundar um pouco mais na cultura. Adoro jazz!!

Fabisa.

Fabisa.

Fabisa me disse que não perde uma edição do Cape Town Jazz Festival. “Eu venho há 11 anos! Isso é african beat!”, falou empolgada.

Michael também vem há 11 anos. “Isso é parte da minha vida. Está em minhas veias! Isto é minha vida!!”, disse com satisfação.

Para Nbulelo, que também não perdeu uma edição, o jazz relaxa a mente e diminui o estresse.

Aproveitei a oportunidade e pedi algumas dicas de onde poderia assistir a um show de jazz local. Eles me indicaram alguns lugares. É um começo! Gostaria muito de partir de Cape Town tendo conhecido clubes de jazz de raiz, não-turísticos, frequentados por black people locais.

Nbulelo e Michael no Greenmarket Square tomando sua cervejinha (risos).

Nbulelo e Michael no Greenmarket Square tomando sua cervejinha (risos).

Table Moutain, um presente da Terra

Cartão postal da cidade, a Table Mountain, incrustada no coração da Cidade do Cabo, faz recordar o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. Não é à toa que muitos dizem que a Cidade do Cabo é o Rio de Janeiro da África.De fato, a paisagem da cidade, circundada pela montanha e banhada pelo mar, mesclando a natureza com o urbano, lembra muito a geografia da Cidade Maravilhosa. O que é bom neste início de viagem. Sinto-me como se estivesse em casa.

No site oficial do Parque Nacional da Table Mountain, consta que “em nenhum outro lugar do mundo, um espaço de beleza tão espetacular e tão rica biodiversidade existem quase inteiramente dentro de uma área metropolitana”. Sem dúvida, uma semelhança entre a Cidade do Cabo e a Cidade Maravilhosa – com a nossa Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo.

A subida ao platô é um programa imperdível. A vista é belíssima. O deslumbramento começa no teleférico, de onde é possível apreciar de perto as escarpas rochosas da Table Mountain.

Nelson Mandela, em 1998, declarou a Table Mountain um presente para o Planeta. O atributo é merecido. Passar um dia inteiro lá em cima, contemplando a vista da Cidade do Cabo, na quietude da montanha, é um presente. Minha primeira visita à Table Mountain foi muito ligeira. Eu e meus novos amigos, o casal Carles Solis e César Cíntia, subimos às 17:30 h e descemos no último teleférico às 18:30 h. Não deu para desfrutar, sem pressa, os encantos da montanha.

Quero voltar lá, chegar de manhã, ler um livro deitada sob uma pedra, fazer piquenique com amigos com queijos e vinhos e apreciar o pôr-do-sol. O lugar é convidativo.

É possível caminhar por uma vasta extensão do platô, que está preservado. A montanha faz parte do Parque Nacional da Table Mountain, criado em 1998. No platô, a área construída é pequena. Há apenas uma tenda de lembranças e um café.

Uma curiosidade. A Table Mountain é um lugar de vários nomes. Os índios do Cabo “Khoekhoe” chamaram-na de “Hoerikwaggo”, que significa montanha do mar. O astrônomo francês Abbe Nicolas Louis de la Caille, durante sua visita ao Cabo da Boa Esperança entre 1750 e 1754, denominou a montanha de Constelações do Sul e depois de Mons Mensa, que significa em latim Table Mountain. Olhando debaixo, de pontos da cidade, pode-se ver o formato de  mesa da montanha.

Um presente para a Terra... como disse Nelson Mandela.

Um presente da Terra!

De todos os ângulos, a paisagem belíssima!

Enjoy!!

Robben Island ao fundo. Estádio da Copa do Mundo à direita.

Um presente para a Terra. Um presente da Terra!

Castor.

Carles, Cíntia e eu.

Nova câmera e compras na África do Sul

Viajar para a África sempre mexe com nosso imaginário, pois é ainda um destino exótico e pouco conhecido por nós brasileiros. Quando falava para os amigos e colegas que iria mochilar pela África, as reações, por mais diferentes que se apresentassem,  às vezes de alegria ou com uma pitada de preocupação, tinham sempre a mesma característica: estranhamento. Olhares e exclamações de indagação sempre permeavam as conversas. Um ponto de interrogação sempre pairava no ar. Para mim, isso também é verdade. O exótico quanto ao desconhecido aguçou a minha imaginação.
Sempre fotografei e escrevi sobre minhas viagens. Dessa vez, pensei que não poderia ir para a África (um destino “exótico”) e apenas fotografar e escrever. Tinha também de filmar. Registrar a vida, as cores, os tambores e movimentos africanos.
Então, antes de sair do Brasil, vendi minha antiga câmera digital, que só fazia fotos, a Rebel XTi 400,  e comprei a minha nova Canon aqui, a Rebel T2i 550D, que também faz vídeos.
Os preços não são tão competitivos em relação aos do Brasil. Paguei cerca de 11.000 rands (a moeda local) na Canon
T2i, que dão 2.750 reais (o câmbio gira em torno de 1 real = 4 rands). A grande vantagem foi encontrar o último modelo da nova versão da Rebel com vídeo, que ainda não se encontra disponível no site da Canon do Brasil. O preço torna-se mais competitivo no retorno para a casa, quando é devolvido ao turista o imposto de 14% embutido no valor final da mercadoria. Assim, a Rebel T2i custará para mim cerca de 2.400 reais.Clyde Paulsen, convincente vendedor
Para compra acima de 3.000 rands, a aduana sul-africana exige, para a devolução do imposto, que os dados do comprador, nome e endereço no seu país, estejam apontados na nota fiscal. Isso é necessário para um única compra acima desse limite. A identificação do comprador na nota fiscal não é exigida para várias compras de pequena monta, mesmo que ultrapassem o limite de 3.000 rands.
Como desconhecia a existência do último modelo da Rebel com vídeo, não sabia de suas especificações. O vendedor, Clyde Paulsen, apaixonado também por fotografia, me explicou com detalhes todas as diferenças entre a T1i e a T2i. Após quase 1 hora na loja, Clyde me convenceu, com a sua simpatia e argumentação, a comprar a T2i. No meu caso, isso não é muito comum. Sou daquelas que pesquiso muito antes de comprar algum produto. Quero ter certeza do custo-benefício. Só gostar de comprar coisas necessárias e  úteis. Faço questão de publicar a foto de Clyde porque ele foipatient and Kind to me. “Repeat, please”, eu disse várias vezes. Ele repetiu, repetiu e repetiu, com um semblante sempre sorridente. Você já pode imaginar o que é explicar as funções técnicas de uma câmera in English para uma brasileira que doesn’t know English?!! (risos)
At the end, feliz com meu novo brinquedinho!!

Chegada no aeroporto de Joanesburgo

Logo chegada no aeroporto de Joanesburgo, em conexão para a Cidade do Cabo, começou a aventura. Uma das minhas bagagens foi extraviada. No caso, minha mochila com roupas de montanhismo, livros e outros pertences. Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo em viagem. E, é claro, a sensação é muito desconfortante. Não é nada agradável perder seus objetos pessoais, ainda mais no início de uma longa viagem. Minha preocupação foi potencializada, porque já havia sido avisada de que este é um fato corriqueiro no aeroporto de Joanesburgo.
Quase perdi o voo de conexão tentando desenrolar a situação no Setor de Reclamação. Por sorte, minha mochila apareceu intacta no aeroporto da Cidade do Cabo. Já as brasileiras Natalie Hurtado e Mariana Arca não tiveram a mesma sorte. Mariana Arca, carioca, que veio estudar inglês e mochilarum ano pela África, também teve sua mala arrombada. Foram furtadas roupas e um relógio.
Isso aconteceu com vários brasileiros que encontrei por aqui. A mala foi extraviada e entregue dias depois, arrombada e sem alguns pertences. A maioria atribui esse problema à companhia aérea e não ao aeroporto. É preciso apurar. Eu e os outros brasileiros viajamos de South African Airways.
Bem, não estou contando esta história para desanimar os viajantes a conhecerem a África do Sul. A intenção é só dar a dica para se evitar colocar objetos de valor na mala a ser despachada.
O lado bom é que o incidente não abalou o humor das duas. Para Natalie, que adorou sua estada na Cidade do Cabo, vão-se os anéis e ficam os dedos. E Mariana está feliz  e curtindo a viagem.
Natalie, professora de Ciências Atuariais da UFRJ, em visita à Cidade do Cabo para participar de um congresso, teve sua mala extraviada na chegada e arrombada no retorno para o Brasil.
Tanto Natalie como Mariana foram prevenidas. Suas malas estavam trancadas com cadeado e, no caso da Mariana, embalada com plástico. Mariana pretende acionar o seguro da empresa de plastic bag protection.

Preparativos da viagem

O primeiro e principal preparativo para uma longa viagem à África é o cuidado com a saúde. Tomar as vacinas recomendadas para cada país africano que se pretende visitar.
Na rede pública do Rio de Janeiro, dispomos dos serviços do Centro de Medicina de Viagem do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (IPEC/FIOCRUZ) e do Centro de Informação em Saúde para Viajantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CIVES/UFRJ). Nesses dois centros, é possível agendar uma consulta com um infectologista, que receitará as vacinas adequadas, considerando o histórico de saúde do viajante e o local de destino na África. Na rede privada, existe o Centro Brasileiro de Medicina do Viajante (CBMEVI) da Clínica de Vacinação Vaccini. Nem todas as vacinas estão disponíveis na rede pública. É possível tomá-las nas clínicas Vaccini e Neovacinas.
No meu caso, como pretendo conhecer, além da África do Sul, outros países africanos (Namíbia, Tanzânia, Moçambique, Quênia), tomei, por recomendação médica, quase todas as vacinas existentes. Foi uma maratona. Meu calendário de vacinação para adulto não estava em dia e comecei me vacinando contra Tétano, Difteria e Febre Amarela.
Para quem vem para a Copa do Mundo, a Febre Amarela é uma vacina obrigatória para entrar na África do Sul. É possível tomá-las nos postos públicos de saúde, mas o Certificado Internacional de Vacinação é retirado, somente, no posto da Anvisa no aeroporto do Galeão.
Essa é a extensa lista das demais vacinas que tomei: Hepatites A e B, Tríplice Viral (sarampo, caxumba e rubéola), Antimeningocócica A e C,  Cólera, Febre Tifóide e Pólio.
Importante destacar que não existe vacina contra Malária. A profilaxia para prevenção da doença é usar repelente com a substância Picaridina com concentração de 30 a 50%, diminuir ao máximo a exposição do corpo, utilizando, por exemplo, camisas de mangas longas, optar por hospedagem com ar condicionado ou mosquiteiro e tomar 1 comprimido da substância Doxicilina uma vez por dia, tomando-se 2 dias antes da viagem e  4 semanas após o retorno da área de risco. Essas foram as recomendações do infectologista da FIOCRUZ.
O ideal é realizar a consulta da medicina do viajante com antecedência. Eu deixei para a última hora e só tomarei a última dose da vacina contra Hepatites A e B aqui, em Cape Town.
Fiocruz:
Cives/UFRJ:
Neovacinas:
Vaccini:

Por que África?

No fim da peregrinação do Caminho de Santiago, continuando a busca de autoconhecimento, fui visitar a terra do meu pai em Portugal, a aldeia de Cumieira, na região de Trás-os-Montes, no distrito de Vila Real. O lugar é belíssimo. O nome já revela a topografia da aldeia. O povoado está situado no cume dos montes. Nas encostas, os vinhedos adornam a paisagem. Para minha grata surpresa, Cumieira está na rota do vinho do Porto. Passei dias muito especiais ao lado da minha calorosa família portuguesa, regados com muito vinho e azeite caseiros, feitos artesanalmente nos porões das casas. Lá, depois de conhecer minhas raízes lusitanas, as famílias Coelho e Pinto, bateu a vontade de conhecer minhas raízes africanas. Minha bizavó, Maria de Souza Ramos, era negra, nasceu 9 anos após a Abolição da Escravatura e sua mãe, minha tataravó, foi escrava.

E, assim, aqui estou na África do Sul, iniciando minha jornada!

A feliz coincidência é a Copa do Mundo! Época de festa aqui do outro lado do Atlântico!!

De partida para o mundo !!

Gentileza gera Gentileza! Viajei com este espírito. Espalhando Gentileza no Mundo!!

O coração bateu forte e falou para eu realizar um sonho antigo de mochilar pelo mundo.

De volta para a casa, após caminhar 40 dias sob as estrelas do Caminho de Santiago, a voz do meu coração disse para mim: “Vai! Vai! Vai!”.

E eu vim!

Desde os 18 anos, nutro o desejo de conhecer o modo de vida, a cultura, as paisagens dos nossos vizinhos do continente, América do Sul, do outro lado do Atlântico, África, e, um pouquinho mais longe, Índia, Nepal e Tibet. Comecei mochilando pela América do Sul durante as férias. Depois, fui para Espanha fazer o Caminho de Santiago, onde cumpri uma promessa, refleti sobre a vida, fortaleci a minha fé e espiritualidade.

A experiência no Caminho de Santiago foi tão positiva e transformadora – um desnudamento da minha alma, da minha vida, que me fez querer prosseguir, surfar na onda da vida.

Agora, estou aqui, na África!

Caminho de Santiago, a utopia é possível

O Caminho de Santiago foi uma grata surpresa. Saí do Brasil movida por um sentimento de busca… Não sabia ao certo o que iria encontrar. Ainda no Brasil, antes de partir, escrevi num blog que buscava, na experiência desse longo caminhar, o autoconhecimento, um encontro com o meu Ser, com o etéreo, o divino, o Bem… Não sabia ao certo como seriam esses encontros… Uma vaga ideia circundava minha mente. Imaginava que seria caminhando sozinha. Queria uma luz, um sinal, algo que me conduzisse no meu caminhar. Queria, também, encontrar o sentido da vida. O Caminho de Santiago surpreendeu-me. Deu-me todas as respostas. E, principalmente, surpreendeu-me pela forma como elas chegaram até mim.

Para falar do Caminho de Santiago, preciso, antes, voltar 5 anos no tempo e discorrer um pouco sobre a minha viagem à Amazônia. A minha perene busca sobre a dualidade essência-existência humana. Existe essência humana? O homem nasce bom? Nasce mau? Ou o homem é pura existência? Sua identidade se constrói pelo contexto social?… Inspirada no mito do bom selvagem de Rousseau, voei do Rio de Janeiro para Santarém, embarquei num barco gaiola e desci o rio Tapajós durante 9 dias, para conhecer a Amazônia Ribeirinha. Lá encontrei a pureza, senti o Bem, nos olhares e sorrisos afetuosos e gratuitos para mim do povo ribeirinho. Não tinha nada a oferecê-los… Digo, em termos materiais. Apenas a alegria de estar ali e conhecê-los. Essa generosidade e gratuidade deles me tocaram. Nesse encontro, pude vivenciar que a humanidade transcende a cultura, o meio social. Não consegui respostas para o dilema essência ou existência humana, mas retornei para a casa com a certeza de que o homem não é só mau, mas também é bom. De volta ao Rio de Janeiro, deprimi. Foi difícil à readaptação aos jogos de interesse, competitividade e individualidade da sociedade capitalista.

Imbuída também de semelhante sentimento, voei do Rio de Janeiro para Espanha. Só que, dessa vez, queria encontrar o Bem através de uma experiência transcendente, imaterial, por meio de uma conexão direta entre mim e o divino, sem intermediários. Por isso, saí do Brasil com a ideia fixa de caminhar sozinha. Logo na primeira noite, chegando em Roncesvalles, onde iniciei o caminho, na fronteira com a França, senti-me só, por não conseguir me comunicar. A maioria dos peregrinos falava inglês e eu, apenas, espanhol. Na manhã seguinte, encontrei duas brasileiras. Senti-me amparada. Bom encontrar alguém familiar, que fala a mesma língua, numa terra estrangeira. Além disso, a segurança que as duas me transmitiram (faziam o caminho pela segunda vez) revigorou minha confiança para iniciar minha longa jornada. Caminhamos juntas os primeiros 11 km dos 840 km de Roncesvalles a Fisterra.

E, assim, aconteceu nas próximas três semanas. Caminhei com espanhóis, portugueses, sul-coreanos, suíços e um americano. Os encontros com meus companheiros de jornada foram muito significativos para mim. Sou daquelas pessoas que costumam seguir os planos que traçam para si. Em função da magia desses encontros, posterguei minha intenção de caminhar sozinha. A atmosfera peregrina de fraternidade me seduziu e encantou.

A atenção, a preocupação e o carinho gratuitos de pessoas que nem me conheciam, não sabiam a minha origem social, não tinham outros interesses por mim a não ser o fato de eu ser uma pessoa, me tocaram. A lógica que permeia as relações sociais nos grandes centros urbanos da sociedade capitalista de que você vale pelo o que você tem, pelo status e posição social, não se colocou na minha vivência no Caminho de Santiago. Lá, as relações se alicerçavam no Ser e não no Ter.

Pessoas de várias partes do mundo, de nacionalidades, culturas e línguas diferentes, unidas por um único laço universal: a humanidade. Unidas pelo sentimento de que somos únicos, iguais mesmo com nossas diversidades socioculturais. Somos humanos. E essa identidade é universal e perene no tempo. E é com base nela, na força de sua Verdade contundente, que o pacto social do Caminho de Santiago fundado na fraternidade e solidariedade se alicerça, ultrapassando as fronteiras simbólicas da divisão física e política em países.

Outra peculiaridade da micro-sociedade do Caminho de Santiago é a mitigação do poder do dinheiro. Não é necessário ser rico para fazer o caminho. Durante todo o caminho, há albergues públicos ou paroquiais, que são, em sua maior parte, à base de doação. O peregrino contribui com o que pode. Isso permite que pessoas de diferentes classes sociais façam o caminho. Há também a opção de hospedagem em albergues privados ou hotéis. Eu preferia ficar em albergues paroquiais e públicos, em virtude da atmosfera comunitária. Todos compartilhando, harmoniosamente, o mesmo espaço, partilhando a comida, comendo juntos. O que traduz o autêntico clima peregrino de fraternidade, solidariedade e igualdade.

Também não se estabelece na micro-sociedade peregrina a lógica da diferenciação social discutida por Baudrillard em “A Sociedade de Consumo”, na qual as pessoas são diferenciadas, nos centros urbanos, pelos acessórios e roupas caras de marcas exclusivas que usam – que concedem status e indicam a classe social. Os signos de prestígio, poder e dinheiro não se colocam na sociabilidade do Caminho de Santiago. Como o peregrino carrega consigo todos os seus pertences (roupas, produtos de higiene etc.), põe-se só o necessário na mochila para fazer o trajeto com conforto e segurança. O peregrino repete a mesma roupa todos os dias. As roupas são funcionais. A vestimenta peregrina é escolhida pelo seu valor de uso (é resistente? confortável?) e não pelo valor simbólico dos bens de prestígio social. Desse modo, as relações interpessoais não são mediadas pela pertença de produtos de luxo e exclusivos (signos de prestígio social), propiciando laços sociais mais genuínos, sem jogos de interesses, alicerçados no sentimento de humanidade.

Os laços sociais que se formam no Caminho de Santiago mostram-nos que um novo pacto social fundado em laços sólidos com o outro, com o ser humano, alicerçado na humanidade, é possível. Depois de minha vivência no Caminho de Santiago, tenho a certeza de que a utopia é possível. A paz brilhará no mundo. A sociedade do futuro calcada no ideal de justiça e não-violência não é um sonho. Está em construção. Dessa vez, voltei para a casa feliz e com as esperanças renovadas!

Ainda não tenho a resposta se o homem é bom ou mau em sua essência ou se é produto do meio social. Apenas sei (e na verdade é o que importa) que o homem pode ser bom, pode escolher o caminho do Bem: amar e respeitar o outro pelo simples fato de o outro ser um ser humano… Foi assim que o Caminho de Santiago me surpreendeu. Eu vivi minha experiência transcendental no encontro com o outro de carne e osso… Outro que não me conhecia, não sabia nada de mim, mas foi cortês, atencioso comigo. Cuidou de mim, apenas porque eu sou uma pessoa. E, através desses encontros despretensiosos e, ao mesmo tempo, repletos de amorosidade, eu encontrei e senti Deus. Senti o amor da humanidade. 

Descobri, também, o sentido da vida. A razão da existência. O que dá significado à vida são as pessoas que cruzam nossos caminhos e temos a felicidade de compartilhar esta experiência única e fascinante que é viver…

Que bom que eu deixei o etéreo me conduzir e, através de seus sinais, guiar meus passos ao encontro dos meus companheiros de jornada, meus amigos peregrinos, e, na magia desses encontros, vivenciar a transcendência divina e resgatar a utopia dentro de mim. Grata surpresa!

*Michelle Glória é fotógrafa e mestra em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social.

Texto publicado na Revista Verbo 21:

http://www.verbo21.com.br/

Fotos dos peregrinos, meus companheiros de jornada:

http://www.flickr.com/photos/michellegloria/sets/72157622779335717/