Salar de Uyuni, Deserto do Sal

Publicação no Jornal do Brasil online.

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Salar de Uyuni, Deserto do Sal

Imensidão branca

Bolívia: Uma aventura para chegar a Uyuni, o maior deserto de sal do planeta

Michelle Glória

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 09 de agosto de 2006.

UYUNI – BOLÍVIA. O Salar de Uyuni ou o Deserto do Sal, na Bolívia, é como sonhar de olhos abertos. O olhar se espanta diante de tamanha excentricidade. Paisagem inusitada para a memória visual brasileira, não se assemelha a nenhuma maravilha natural do nosso país. Face a face ao desconhecido, o olhar se surpreende. A pintura onírica extasia o coração.

Duas são as portas de entrada para o mundo surreal: La Paz ou Santa Cruz de la Sierra. Por La Paz, é possível dar uma paradinha em Oruro para conhecer outro deserto: o Salar de Coipasa, o segundo maior deserto de sal da América do Sul e terra dos índios chipayas, ameaçados de extinção. A segunda rota é Santa Cruz de la Sierra-Sucre-Potosí-Uyuni. O trecho de Santa Cruz a Sucre compensa fazer de avião. Os preços do vôo local são módicos e a viagem por terra é longa e desconfortável.

Sucre é famosa pela alvura de sua arquitetura. Igrejas e casarões brancos compõem o cenário urbano da capital oficial da Bolívia – a sede do governo, de fato, está em La Paz. Declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1991, a cidade vale uma visita de dois dias.

Para quem tiver pouco tempo, a opção é desembarcar em Sucre e pegar um táxi coletivo direto para Potosí. Os motoristas têm o hábito de pescar os clientes no saguão do aeroporto. A viagem de duas horas já rende um belo passeio. Só cuidado com o motorista. A estrada traceja o altiplano boliviano com curvas sinuosas e as ribanceiras estão logo abajo.

Potosí, incrustada nas encostas de uma depressão geográfica do altiplano boliviano, é uma cidade de altos e baixos. Tornou-se conhecida por conta das minas de prata do Cerro Rico – uma montanha majestosa e onipresente, incorporada ao cenário urbano – e por ter feito história – foi palco de manifestações populares, o que lhe rendeu a alcunha de Cidade das Dinamites, explosiva tanto nas minas como nas ruas.

Imergir nas minas do Cerro Rico é um convite à reflexão. Submersos nas cerca de cinco mil minas do Cerro Rico, adolescentes e adultos trabalham até doze horas por dia. A atividade mineradora é explorada por uma cooperativa. A idade mínima para o trabalho é de 12 anos. A idade máxima chega até cerca de 40 (quando as forças dos mineradores já estão no fim). Neste cenário, inevitável o questionamento: eles tornam-se mineradores por opção ou por falta de opção?

Vale a pena perambular pelo Centro Histórico de Potosí. É um mergulho no tempo. Uma história a céu aberto. História oral, contada pelo povo. O monumento mais famoso é a Casa de La Moneda. A construção era uma fundição de prata na época colonial. Hoje é um museu. Pinturas do barroco andino, moedas e artefatos da América espanhola fazem parte da exposição permanente. As visitas são guiadas e duram cerca de duas horas.

Museu e lembranças: tudo de sal

Hotel de Sal.

O Salar de Uyuni é o maior deserto de sal do planeta, com 12 mil km². A evaporação das águas durante milhares de anos deixou cravada no solo uma espessa camada de sal, que descortina um infinito tapete branco. No período de estiagem, que vai de maio a novembro, o solo seco forma lajotas hexagonais de sal que lembram uma colméia gigante. Na época das chuvas, de dezembro a janeiro, o salar inundado é um espelho a céu aberto, que reflete as nuvens do céu. Fica difícil definir o que é terra, o que é ar.

A época propícia para fazer a travessia é fora do verão. O passeio ao salar é feito em jipes 4×4, mas as chuvas fortes da estação podem cancelar o passeio. As operadoras locais oferecem programas de um dia, bate-e-volta, e três dias, para quem se aventura na travessia do deserto em direção a São Pedro de Atacama, no Chile.

A travessia começa pela manhã bem cedo. A primeira parada é no Museu do Sal. Esculturas de llamas e outras peças de sal compõe o acervo. Na entrada do museu, senhoras bolivianas vendem suvenires de sal e cactus. Ao levar para a casa, não se esqueça que não se pode lavar o artefato. O suvenir de sal se desfaz na água.

O motorista liga o motor. Trafega algumas horas em linha reta no meio do nada, apenas a alva superfície de sal e o horizonte sem fim. A próxima parada é o Hotel de Sal. Toda a mobília (camas, mesas, sofás) é feita do cristalino branco.

Um dos pontos altos do passeio vem em seguida: a Isla del Pescado, um monte de pedras solitário no tapete branco, repleto de cactos gigantes com até 12 metros de altura. Vale queimar alguns rolos de filme ou deixar alguns cards cheios Depois do tour pelos cactus gigantes, no sopé da ilha, um saboroso almoço preparado pelo motorista aguarda o viajante. Terminada a refeição, é hora de partir para o fim do dia e pernoitar em uma hospedagem rústica ao lado do salar. 

Belezas a 4 mil metros de altitude

Bolívia: Os lagos vulcânicos de Potosí valem um mergulho em suas águas mornas. Já Uyuni parece um cenário retirado de western ianque, mas com legítimos personagens latino-americanos

A elevada altitude de Potosí, acima dos 4 mil metros, pode causar náuseas e dores de cabeça, primeiros sintomas do soroche. Para evitá-lo, é bom beber muita água. Se o mal-estar persistir, uma opção é recorrer aos costumes locais: mascar folha de coca e tomar chá de coca. E para desmistificar: nenhum dos dois produz efeitos alucinógenos.

Gratifica muito também dar uma rodopiada nos arredores de Potosí. A 22 km do perímetro urbano, está a Laguna Tarapaya, um lago formado por águas sulfurosas verde-musgo do vulcão adormecido. O lago é a boca de um vulcão extinto. Indescritível dar umas braçadas naquelas águas mornas e densas. É como se conectar com o centro da Terra. Segundo o vigilante da laguna, a cratera é sem fim. O passeio leva uma manhã.

O trajeto de Potosí a Uyuni é um poço de surpresas com direito a uma certa dose de adrenalina. A estrada de terra serpenteia as colinas íngremes do altiplano boliviano – um planalto de 800 km de comprimento por 129 km de largura, com altitude acima dos 3.500 m, que se estende do Lago Titicaca (norte da Bolívia, fronteira com o Peru) até Uyuni (sul da Bolívia, fronteira com Chile e Argentina). Os motores e freios dos ônibus, normalmente em condições precárias, muitas vezes deixam de funcionar. Aí, só com espírito corajoso e aventureiro a la Indiana Jones.

Sentei ao lado do motorista. O motor ameaçou parar algumas vezes. O auxiliar levantava o capô e dava, literalmente, corda no motor. A fumaça vinha toda no meu rosto. Viajar na Bolívia é assim mesmo. Para quem gosta de adrenalina, um prato cheio. A viagem dura cerca de sete horas. Os ônibus saem pela manhã de Potosí e chegam ao cair da tarde em Uyuni.

Perdida na imensidão do deserto, Uyuni parece isolada do resto do país. O aeroporto mais perto ficou para trás em Sucre, a 9 horas de viagem. A próxima saída por avião só em Calama, no Chile, distante 2 mil km.

Uyuni lembra uma cidadezinha do faroeste americano. Em vez de apaches e cowboys, quechuas e aimaras – campesinos típicos do altiplano boliviano – perambulam por suas ruas. Quinquilharias e iguarias são vendidas no meio da via principal. Uma boa pedida é experimentar a salteña – salgado bem temperado de carne ou frango, com legumes picados – acompanhada da Paceña, a cerveja boliviana.

No fim da rua principal está o cemitério de trens. Vale a pena uma visita, principalmente para quem gosta de fotografar. A próxima parada é o Salar de Uyuni. Antes de partir para o deserto, é bom levar medicamentos e quinquilharias de uso pessoal. A travessia é longa e erma.

Vale a pena perambular pelo Centro Histórico de Potosí. É um mergulho no tempo. Uma história a céu aberto. História oral, contada pelo povo. O monumento mais famoso é a Casa de La Moneda. A construção era uma fundição de prata na época colonial. Hoje é um museu. Pinturas do barroco andino, moedas e artefatos da América espanhola fazem parte da exposição permanente. As visitas são guiadas e duram cerca de duas horas. 

Flamingos e gêiseres no caminho

Árbol de Piedra.

No segundo dia, é hora de atravessar o Desierto de Siloli, formado por esculturas rochosas de lavas de vulcão insculpidas pelo vento. O mais conhecido monumento natural é o Árbol de Piedra. Ao cair da tarde, chega-se à plácida Laguna Colorada, um santuário dos flamingos. É permitido caminhar às suas margens e apreciar as aves bem de perto.

No terceiro dia, a ordem é acordar bem cedo, por volta das quatro da madrugada, para apreciar os gêiseres em ação, lançando gases sulforosos em alta temperatura. É bom estar bem agasalhado, porque o frio de zero grau é cortante. A visão distante, ainda no crepúsculo, do Geiser Sol de Manana entristece, lembra a bomba de Hiroshima, mas impressiona. É possível caminhar perto dos gêiseres, com cuidado para não se queimar com os esguichos de enxofre.

A poucos minutos dali, é hora de tomar o café da manhã à beira de piscinas naturais de águas termais. Servido o café, o motorista parte para o próximo destino: as Rocas de Dalí.

A paisagem desértica das Rocas assemelha-se à mais famosa obra de Salvador Dalí: A persistência da memória. “No lo sé. No lo creo….”, responde o motorista ao ser indagado se Dalí estivera na região pintando aquele cenário. “Creo que es porque si parece con una pintura de él”, completa. Dalí, de fato, não esteve ali. Mas uma coisa é certa: esteve no mundo dos sonhos, no inconsciente.

Ainda na Bolívia, a última parada é na Laguna Verde, aos pés do vulcão Licancabur, que, dependendo dos raios do sol, se reflete em suas águas verde-esmeralda, formando uma graciosa fotografia. Alguns minutos de deleite e o motorista dá a partida. É hora de seguir viagem rumo a São Pedro do Atacama. O altiplano boliviano está entre os dez lugares mais bonitos do mundo, segundo mochileiros de carteirinha. E a paisagem é, de fato, arrebatadora.

Dicas:

– Leve roupas leves e pesadas. No altiplano boliviano, com a altitude acima dos 4 mil metros, faz muito frio. Os ponteiros registram zero grau e, às vezes, até negativo.

– Para a mochila não pesar tanto, deixe de lado a estética e seja prático. Leve só o que for útil. Camisas de tecido tipo dry-fit, que seca rápido. De preferência, de mangas compridas, para proteger dos raios solares.

– Leve calças de tecido fino e leve (suplex, tactel). Além de confortáveis, secam rápido. Opte pelas “dois em um”, as que têm zíper na altura dos joelhos e viram bermudas.

– Leve também roupas impermeáveis (capas de chuva, anorak etc).

– Bonés, óculos de sol, protetor solar são indispensáveis.

– Fundamental levar um saco de dormir zero grau para as noites nos refúgios rústicos do deserto.

– Tente colocar tudo em uma única mochila-carga para não ficar cheio de penduricalhos no pescoço. Um mochila pequena só para perambular pelas ruas de Potosí com máquina fotográfica e otras cositas más.

– Para os alérgicos. Quem sofre de rinite, é bom levar seus medicamentos. A mucosa se irrita com tanta poeira.

Monte Roraima

Misticismo na fronteira

Em Monte Roraima, na divisa com a Venezuela, lendas indígenas mesclam-se a cenários de sonho.

Michelle Glória

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 07 de dezembro de 2005.

BOLÍVAR, VENEZUELA – A aventura de desbravar a Grande Savana venezuelana nos faz sentir como coadjuvantes em um filme de Indiana Jones. As peripécias do herói em lugares exóticos bem que poderiam acontecer no lugar. Somente em longas expedições a pé, de mountain bike ou automóvel 4×4 é possível explorar a região. Além dos desafios naturais, as histórias ouvidas por lá despertam a imaginação com lendas indígenas sobre ervas com poderes sobrenaturais, guerreiros invisíveis, façanhas de caçadores em busca de tesouros perdidos e outras tantas… O ápice da expedição é desvendar os mistérios do platô do Monte Roraima, com 2.875 metros – onde está o terreno mais antigo do planeta e habita Macunaíma, entidade sagrada dos índios pemones (venezuelanos) e macuxis (brasileiros).

A Grande Savana (ou Gran Sabana, como dizem por lá), situada no Parque Nacional Canaima, no Sul da Venezuela e fronteira com o Norte do Brasil (divisa com Roraima), é o embrião do mundo. As formações rochosas daquela região remontam à era pré-cambriana, possuindo até 3.600 milhões de anos.

Grande Savana.

Imensos blocos de pedra na forma de mesetas (pequenos planaltos), chamados de tepuyes pelos pemones, emolduram o cenário da Grande Savana. As formações resultaram do acúmulo de sedimentos vindos das terras altas do supercontinente Gondwana, há 1.800 milhões de anos – quando América e África ainda estavam unidas, muito antes da fratura que originou o oceano Atlântico, separando os continentes. Pertencem à área geológica do Maciço das Guianas, que se estende além dos limites da Venezuela, ocupando parte da Guiana, Suriname, Colômbia e Brasil.

A bucólica vegetação rasteira da savana serpenteada por vales de moriches (buritis) mescla-se com a imponência dos enigmáticos tepuyes. São mais de vinte na região, sendo o Matawi-kukenán e o Monte Roraima os mais famosos. A subida ao tepuy Kukenán é muito íngreme e perigosa. No seu platô, além de a orientação ser difícil, há muitas fendas encobertas pela vegetação que tornam a caminhada arriscada. Um turista já desapareceu no topo sem deixar rastros. Por isso, a subida ao Kukenán é restrita.

– Kukenán é uma montanha sagrada. Nela vivem os espíritos de guerreiros pemones que não devem ser molestados – conta Benetton, guia indígena que acompanha os turistas na expedição ao Roraima. Para ele, o despertar dos guerreiros é a causa do desaparecimento misterioso do turista.

Benetton ouvia do seu avô histórias sobre lutas seculares pela posse da terra, travadas entre os índios macuxis e pemones (de etnia arekuna, kamaracoto e taurepang). Quando um guerreiro pemon era derrotado, jogava-se do alto do tepuy Matawi-kukenán. Na língua indígena, ”matawi” significa ”quero morrer” ou ”lugar de suicídio”.

– Os guerreiros arekunas ingeriam uma erva que lhes concedia poderes sobrenaturais. Passavam a ter agilidade e coragem sobre-humanas. Locomoviam-se dezenas de metros numa fração de segundos. Combatiam e matavam os inimigos sem temor – fala baixinho, quase pedindo licença, Benetton.

Os espíritos desses guerreiros são chamados pelos pemones de canaimas – entidades temidas até hoje. Quando alguma morte inexplicável acontece, os índios atribuem-na aos desígnios do canaima. Daí vem o respeito mítico de Benetton pelo Kukenán. O misticismo está entranhado nos pemones.

Jornada rumo ao topo

O roteiro tradicional dos montanhistas que exploram a região é a subida ao Monte Roraima. A porta de entrada ao mundo das pedras monumentais é a cidade de Santa Elena de Uairen, na Venezuela. Para chegar até lá, a melhor opção é voar até Boa Vista e percorrer cerca de 220 quiolômetros pela BR-174 até a divisa. Pelo lado brasileiro, não há como chegar ao topo do Roraima caminhando, só escalando; porém, o acesso não está aberto à visitação pública.

Vale a pena dar um pequeno giro pelo centro da interiorana Santa Elena. O passeio desnuda um pouco a história e a cultura locais. A cada esquina, os olhos se deparam com letreiros: “Compro oro y diamantes”– a savana já foi palco da mineração clandestina. Hoje, a garimpagem legalizada está nas cercanias do Parque Canaima.

Uma boa pedida para quem gosta de apreciar os costumes locais é tomar o café da manhã em frente à feira perto do Centro. Peixes, frutas e quinquilharias são vendidos pelos índios sobre o chão das calçadas. A profusão de cachos de bananas verdes impressiona. Elas são servidas fritas e saboreadas salgadas – os chamados plátanos, que acompanham as principais refeições. Vale a pena experimentar. Também não deixe de provar a arepa, um pãozinho redondo feito de milho. Servida quentinha, a iguaria derrete na boca.

Pelas ruas da cidade, carros caindo aos pedaços dividem o espaço com modernos 4×4, repletos de bagagem até o teto. Os venezuelanos dos centros urbanos adoram botar o pé na estrada, explorando as belezas naturais do caminho. Exibem com orgulho no vidro traseiro dos automóveis os seus intinerários: “De Caracas para Gran Sabana” (mais de mil quilômetros!). O estilo on the road não perde o conforto. Os 4×4 são superequipados. Na Grande Savana, é corriqueiro deparar-se com barracas armadas sobre os tetos dos carros. Possuem até escadinha para descer. Um luxo!

Viajar para o mundo pré-histórico e mítico do Monte Roraima é possível até para nós, seres comuns. Não é preciso ser tão intrépido e forte quanto Indiana Jones. Um pouco de vigor nas canelas e determinação bastam.

As expedições ao Roraima duram de sete a nove dias. Tudo dependerá da disposição de permanecer no topo. Dois ou quatro dias no platô são suficientes para conhecer todos os monumentos naturais e mergulhar um pouquinho num tempo muito remoto.

O início da trilha é na comunidade indígena de Paraitepui, a 70 km de Santa Elena de Uairén, em asfalto. Até a comunidade são mais 22 km de terra. Transitáveis só a pé, moutain bike ou (para quem deseja poupar as energias) num bem-vindo carro 4×4!

Após alguns minutos caminhando, uma subida íngreme assusta. O pensamento “não vamos conseguir” invade a mente. Passa rápido. Logo o desnível acentuado cede espaço a uma caminhada suave e plácida até o acampamento Ték. No primeiro dia, caminha-se só umas quatro horas. Apenas para despertar os músculos preguiçosos.

O cenário do acampamento Ték é esplendoroso: de um lado, o tepuy Kukenán, do outro, o intrigante Monte Roraima. Ainda para deleite do corpo, ali pertinho passa o refrescante rio Ték. Uma delícia tomar banho na hidromassagem natural que se forma numa pequenina queda d’água.

No segundo dia, o desnível é acentuado – de 1.100 m (acampamento Ték), chega-se a 1.870 m (acampamento base, no sopé do Roraima). O Kukenán e o Roraima são companheiros inseparáveis de toda a caminhada. Seguem sempre à vista. O início da trilha rasga pequenos morros de capim rasteiro, num leve sobe e desce. Uma surpresa: no alto de uma colina, uma pequena capela de pedra (em construção) compõe o cenário. Na savana, o sincretismo religioso é incipiente.

– Em razão da influência da igreja evangélica, na minha tribo arekuna, muitos não falam mais nosso idioma, por vergonha. Só espanhol. Os antigos também não contam mais para os jovens as histórias dos nossos ancestrais. Isso me preocupa. Tenho medo da nossa cultura se apagar da memória do nosso povo – lamenta Benetton, que nutre um sonho de escrever um livro sobre as histórias e lendas da sua tribo. Antes que se percam…

Logo após a capela, chega-se à primeira aventura da expedição: atravessar o rio Kukenán. Às vezes, quando há tromba d’água, o rio torna-se caudaloso. Nesses momentos, a opção é esperar o volume da água diminuir ou atravessar a remo. Isso, se o dono da canoa estiver por perto.

O Kukenán nasce no platô do tepuy homônimo. As chuvas torrenciais que caem no topo do tepuy avolumam o Salto Kukenán, provocando a elevação do nível do rio. Esse fenômeno é fruto da grande massa de ar úmido (vinda do Atlântico) e da alta radiação solar das paredes do tepuy, que formam densas nuvens orográficas.

Do rio, tem-se o visual belíssimo de La Ventana. Sombra e água fresca… E com direito a cerveja! Num casebre do lado do rio, o pai do Mário (um dos carregadores) vende a bebida para a alegria dos montanhistas perdidos no mato.

Passados os momentos idílicos no Kukenán, é hora de seguir: o majestoso Roraima chama. A subida é lenta e gradual. Adelante de los ojos? A paisagem de La Rampa e de um carro Maverick, que marca o ponto culminante do Monte Roraima. Chega-se ao acampamento-base ao cair da tarde. O pôr-do sol é um espetáculo à parte! Os tênues raios formam, nas paredes do Roraima, um lindo mosaico de pedras de múltiplos tons áureos. Um arco-íris complementa a obra de arte da natureza.

O terceiro dia é o gran finale. Uma subida íngreme (um desnível de mais de 800 m), conhecida como La Rampa, separa os aventureiros do almejado Roraima. A cada passo, as saliências do paredão se recrudescem, reafirmando a imponência do tepuy. A respiração ofegante diminui o ritmo da subida. Até encostar no paredão, a trilha percorre uma mata semi-aberta repleta de pequenas quedas d’água que brotam de fendas na rocha. Chegar ao paredão é uma festa! Todos querem tocá-lo.

O ponto crucial da rampa é a passagem por baixo da cachoeira Paso de Las Lagrimas. A pintura da queda d’água sobre o paredão é belíssima! Dá um friozinho na barriga caminhar embaixo dela. As águas escorrem pela trilha, formando córregos volumosos.

Alguns minutos mais e atingimos o portal do enigmático Roraima. As formas das rochas, a neblina, a chuva miúda dão uma sensação de ingresso num mundo desconhecido e distante. Os visitantes permanecem atônitos por alguns momentos… Logo, a alegria invade o peito e máquinas fotográficas registram o momento único. Os mais patriotas fazem fotos com a bandeira do Brasil.

As formações rochosas do platô causam impressões surrealistas. Figuras de animais, objetos, rostos são tracejados na nossa retina. A fauna e a flora do Roraima também são peculiares. Muitas espécies endêmicas habitam o tepuy. Algumas, com parentes na África (fato que corrobora a teoria do supercontinente Gondwana). Tem a minúscula rã de aspecto primitivo, a Oreophrynella, de cor negra para se camuflar entre as pedras; a bromélia de folhas verdes brilhantes e flor amarela, a Stegolepis guianensis; e a pequenina planta carnívora de cor vermelha, a Drosera roraimae, devoradora voraz dos insetinhos indefesos presos aos seus tentáculos.

Platô.

No platô, acampa-se em grutas formadas sob pedras superpostas – abrigos que são chamados de hotéis porque de fato protegem das intempéries roraimenses. Há oito deles ali.

Uma vez no alto do Roraima, a hora é de entregar-se à contemplação da natureza. Perambular pelas redondezas do Hotel Guácharo, ir até a caverna homônima e ao vale dos cânions, curtir a bela vista da savana e o descortinar da paisagem exótica do platô. Um verdadeiro mar de pedras – a ondulação das rochas lembra o balançar das ondas do mar. O mirante La Ventana, o vale de Los Cristales, Punto Triple (marco delimitador das fronteiras do Brasil, Venezuela e Guiana) e o lago Gladys – as riquezas do lugar são infinitas. Depois, a alma de quem desce o platô vai leve.

A conquista da Montanha de Cristal

O inglês Sir Walter Raleigh foi um dos primeiros a desbravar a região do Monte Roraima, em busca de tesouros perdidos, no final do século 16. As descobertas da expedição o levaram a escrever Montanha de Cristal. O livro, publicado em 1596, estimulou muitos exploradores europeus a se aventurar em longas expedições no século 19, atrás da Montanha de Cristal.

Robert Schomburgk, um dos primeiros a chegar ao sopé do Monte Roraima, em 1838, realizou uma importante coleção botânica, levantando a hipótese da existência de dinossauros e plantas pré-históricas no platô. Suspeita que atraiu a atenção da comunidade científica. 

Várias foram as tentativas frustradas de subir o Roraima. Ele chegou até a ser considerado inacessível. Entre os anos de 1879 e 1884, o ornitólogo inglês Henry Whitely, numa de suas diversas viagens, visualizou um caminho possível: La Rampa. Em dezembro de 1884, os ingleses Everard Im Thurn e Henry Perkins, seguindo a rota de Whitely, na companhia dos índios pemones, conseguiram ascender ao topo do Monte Roraima.

Todos os ângulos da savana

A aventura não pára no Monte Roraima. Para quem ainda tiver mais alguns dias, vale a pena rodar pela Grande Savana. Diversificados roteiros são oferecidos pelas agências locais: excursões off road, passeios a cachoeiras e a balneários de água doce, aluguel de bicicleta, rafting, sobrevôos em avionetas e helicópteros e muitos outros.

A cerca de 200 quilômetros de Santa Elena de Uairén, encontra-se o Salto Aponwao. Chegar até lá é uma mini-aventura. Ideal para quem gosta de só um pouquinho de adrenalina. Navega-se por uns vinte minutos numa canoa pelo rio homônino. Num piscar de olhos, as águas mansas transfiguram-se numa queda abrupta. É o Salto Aponwado, com 108 metros.

A canoa aporta a uns 500 metros da queda. Depois do ponto de parada, duas cordas de segurança atravessam o rio. O guia avisa: ”Se a canoa não parar, levantem os braços e se agarrem às cordas”. Dá um medo! Em seguida, 30 minutos de caminhada abajo e estupefação: o vigoroso Salto Aponwao adelante!

Para quem ainda tiver algumas verdinhas na carteira, por cerca de US$ 150 é possível sobrevoar o Salto Angel com 979 m – a maior queda do mundo. As imagens de lá revelam uma paisagem de tirar o fôlego.

Vôos fretados em avionetas levam pequenos grupos até o Auyan Tepuy, onde nasce o salto. Para garantir, é recomendável agendar o passeio antes da expedição ao Monte Roraima – que, por sinal, também pode ser sobrevoado de helicóptero. Outra boa opção para os menos propensos a longas aventuras isoladas da civilização.

Para brincar de Indiana Jones

Como ir

A Varig opera o único vôo diário que chega a Boa Vista na sessão coruja, após as 0h. http://www.varig.com.br

Pacotes

Ruta Salvaje – operadora local. Oferece expedições a partir de US$ 200. http://www.rutasalvaje.com

Bennettón Gomez – o guia indígena. canaparktourguide@yahoo.com Freeway Adventures – oferece expedições de nove dias a R$ 2.510 (parte terrestre). http://www.freeway.tur.br

Quando ir

Recomenda-se evitar o período chuvoso de maio a julho. Janeiro é o mês mais seco.

Na internet

http://www.lagransabana.com

Preparativos

Vacina de febre-amarela, no mínimo, dez dias antes da viagem. Também é recomendável tomar a vacina de hepatite A.

O que levar

Mochila de 30 a 50 litros (para os pertences pessoais) ou mochila-carga acima de 50 l (se preferir dispensar os serviços dos carregadores). Repelentes para afastar os puri-puris (mosquitinhos venezuelanos impertinentes). Filtro solar, boné e óculos de sol.

Camisas de tecidos finos e leves (dry fit) que sequem rápido. De preferência, com mangas compridas – protegem de raios solares e puri-puris. Calças de tecidos finos e leves (supplex, tactel etc). De preferência, as calças 2 em 1 (com zíper nas pernas), que viram bermudas. Casaco impermeável e corta-vento. Meias fofias. Bota de caminhada com solado aderente. Fita silvertape. A bota, às vezes, não agüenta o rojão e se desfaz. Aí, só a fita para salvar o solado e, principalmente, a sola do pé. Capa de chuva. Canivete, cantil e apito (no caso de se perder do guia). Lanternas e pilhas. Saco de dormir. E, para os corações verde-amarelos, a bandeira do Brasil.

Lençóis Maranhenses

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Aventura no litoral: Lençóis Maranhenses

Um charmoso roteiro de jipe entre o Ceará e o Maranhão passa por algumas das mais belas e desertas praias do Brasil

Michelle Glória

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 11/set/ 2005

Quem não gosta de se banhar em águas cristalinas e frescas como as que escorrem das cachoeiras? Programa revigorante e refrescante. Em um dia daqueles, ensolarado, com céu azul de brigadeiro, então… torna-se diversão ainda mais saborosa. Imagine todos esse deleite tendo como cenário uma praia deserta, com esparsos coqueiros. Mergulhar nas lagoas dos Lençóis Maranhenses é exatamente assim: um banho fabuloso em águas doces, envolto por areias alvas e reluzentes, sob calorosos raios solares, na imensidão desse tão particular deserto brasileiro – pontilhado de incontáveis oásis. Desfruta-se a sensação de estar em uma praia isolada, com o frescor das águas das montanhas. Beira o inacreditável!

Não é à toa que o lugar tornou-se rapidamente um dos destinos turísticos do país que mais seduzem viajantes, do Brasil e do exterior. Tanta procura, se ainda não chegou a equipar a infra-estrutura turística com hotéis de luxo ou restaurantes estrelados, como grande parte de recantos nordestinos de caráter similar, diversificou as possibilidades de meios de se chegar nessa porção de paraíso. Uma das mais interessantes maneiras de alcançar os Lençóis Maranhenses é através do roteiro que parte de Fortaleza (ou vice-versa) em jipes 4 x 4. Margeando o oceano, rasgando as areias sem-fim, o bravo veículo transforma a viagem em uma inesquecível aventura, que dura entre quatro e sete dias. Outra possibilidade é chegar voando, em um dos aviões que fazem a rota São-Luís Barreirinhas. Um vôo inesquecível.

Tempo de curtir o fim da temporada de cheia

Resta apenas pouco mais de um mês para se curtir essa maravilha natural ainda este ano. Isso porque passado o período das chuvas, de dezembro a julho, as lagoas começam a secar, até sumirem do mapa para reaparecerem a partir do início do ano. Até o final de outubro vale a pena visitar a região. As vantagens de se conhecer os Lençóis agora, na calmaria da baixa temporada, são os preços convidativos e os lugares mais vazios – ideal para quem gosta de economia e sossego, de preferência bem acompanhado para aproveitar as noites estreladas. E, é claro, o nível das águas ainda permitem belas braçadas naquela paisagem que transforma o Maranhão em um dos mais cobiçados destinos brasileiros. De qualquer forma, há as lagoas perenes: a Azul, a Bonita e a do Peixe, propícias à visitação em qualquer época do ano.

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, criado em 1981, possui 1.550 quilômetros quadrados (do tamanho da cidade de São Paulo), formado por dunas e lagoas (temporárias e constantes). As montanhas de areia estendem-se por até 90 quilômetros do litoral maranhense e 50 quilômetros continente adentro. Como todo deserto, os Lençóis Maranhenses, o nosso intrigante deserto brasileiro, também possui seus oásis. Um dos mais famosos localiza-se em Queimado dos Britos – um pequeno povoado rústico no coração dos Lençóis, onde dorme-se em rede, nos casebres dos moradores, sob o sopro da brisa noturna, o brilho das estrelas e, em noite de lua cheia, sob luminosos raios lunares.

A porta de entrada aos Lençóis Maranhenses é Barreirinhas – cidadezinha interiorana, com 40 mil habitantes, a 272 quilômetros de São Luís. Possui a melhor estrutura turística local: pousadas, restaurantes, lojas de suvenir, agências de turismo. Os passeios mais badalados saem de lá.

A visitação às famosas lagoas Azul, Bonita e do Peixe é feito em um dia em carro 4 x 4 – Toyota e Land Rover são as marcas que dominam as areias – transformados em jardineiras para o conforto do turista. Aliás, a melhor maneira de se chegar à região é a bordo de bravos jipes (leia nas páginas 4 e 5 todo o roteiro), que partem do Ceará e chegam aos Lençóis rasgando as areias à beira-mar – cortando paisagens de sonho, alguns dos mais belos visuais do Brasil.

De Barreirinhas até a entrada do parque são 40 minutos de trilha. Os obstáculos do percurso são muitos: córregos a serem atravessados, imensos lamaçais (que muitas vezes atolam mesmo a jardineira, por isso os passeios acontecem em dois carros), e a mata um pouco fechada (cuidado com os galhos salientes que entram pelas laterais!). O melhor do trajeto são os cajueiros. Uma delícia é tirar uma fruta suculenta, madurinha, do pé e comer na hora!

Sete dias emocionantes entre dunas e praias

Partimos para a aventura de Fortaleza, uma das alternativas de ponto de partida ou chegada para a viagem de jipe entre o Maranhão e o Ceará. Diversas operadoras de turismo já oferecem o roteiro. Inclusive, na Praia de Iracema, na capital cearense, há vários veículos estacionados com fotos da viagem instigando os visitantes a participar da aventura. Pela manhã, o nosso condutor, Paulo (um paulistano recém-chegado nas redondezas, empolgado com a nova opção de trabalho ao ar livre), já batia à porta do hotel para começarmos a aventura 4 x 4. Estávamos, eu e uma amiga que me acompanharia, entusiasmadas e curiosas para saber o que nos aguardava. Dali a sete dias estaríamos nos sonhados Lençóis Maranhenses. Até lá, muitas praias, muita areia e muitas histórias para contar.

Primeiro dia

Seguimos pelo asfalto até as famosas dunas de Cumbuco, a 28 quilômetros de Fortaleza. A partir daí, entramos na areia. Já estávamos ansiosas. O condutor diminuiu a pressão dos pneus para facilitar a condução na areia fofa, fez umas piruetas, mostrando destreza na direção, e lá fomos nós em direção ao nosso destino! Pegamos a praia. A suave brisa a acariciar as faces, as pequenas falésias, o visual deslumbrante do mar mergulharam o nosso espírito em paz. Que delícia de programa esse…

Parávamos ao nosso bel-prazer – aliás, este é um dos trunfos desta viagem: ter nas mãos o controle da programação, é só pedir para parar, para dormir ou comer, que o motorista prontamente nos atende. Muita luxúria para pessoas tão comuns: motorista habilitado a trafegar em condições ruins à disposição, praias belíssimas só para nós, o conforto de uma Land Rover… (Isso dentro do quanto pode ser confortável uma Land Rover, famosa por balançar tanto quanto pela capacidade de superar os mais adversos obstáculos). Inacreditável. Parecia um sonho. Ah! E tudo isso a um preço acessível – custa por volta de R$ 1.800 por pessoa, com tudo incluído, inclusive pousada, exceto parte aérea.

Almoçamos na Praia de Taíba, naturalmente um prato simples: peixe frito, arroz, batata frita e salada. Mas a comida bem caseira e o peixe fresquinho enriquecem o prazer à mesa. Preguiça foi seguir viagem, após se fartar de tanto comer e bebericar algumas doses de caipirinha. Deu uma moleza…

À vista do adiantado da hora, demos um esticada até a Barra de Mundaú para apreciá-la antes do pôr-do-sol. Foi o ponto alto do dia – um local de singular beleza misturado ao nosso estado de êxtase – parecíamos duas meninas eufóricas. Rolávamos nas dunas até as margens da praia. Nos sentíamos leves como o vento… Ainda mais sob o efeito de certas substâncias etílicas…

Saímos da areia ao cair da noite e voltamos para o asfalto. Foi uma puxada pesada até Jericoacoara – e também um pouco cansativo. Rodamos cerca de 200 quilômetros à noite. Chegamos em Jeri (como os íntimos chamam a vila) já tarde da noite. Para quem tiver mais tempo, vale a pena dividir esse trajeto em dois dias.

Segundo e terceiro dias

Curtimos Jeri dois dias. Fomos em todos os pontos turísticos badalados: Pedra Furada, Praia do Preá, Lagoa de Jijoca, Praia do Francês etc – tudo com o suporte do Land Rover, pois apenas bugres e veículos 4 x 4 são capazes de chegar à grande maioria dos principais pontos turísticos de Jericoacoara. Ao entardecer, escalamos a duna ao lado da vila para assistir ao concorrido e celebrado pôr-do-sol. Saracoteamos na balada mais efervescente: o bar do forró. Requebramos os quadris sob o céu estrelado até o sol raiar. Foram dias animados e que nos permitiram seguir viagem descansadas… Um outro ponto interessante desse programa, aliás, é justamente poder escolher os locais onde gastaremos mais tempo: nossa opção foi por Jericoacoara, mas poderia ter sido o Delta do Parnaíba ou os Lençóis Maranhenses. Aliás, a quem tiver tempo e dinheiro é recomendável ficar dois dias ao menois em cada um desses lugares.

Quarto dia

No amanhecer do quarto dia, partimos para a nossa próxima parada: o Delta do Parnaíba. Passamos pela formosa praia de Nova Tatajuba (a velha aldeia foi engolida pelas dunas). Atravessamos a Lagoa Grande até chegar em Camocim, onde deixaríamos o litoral e entraríamos para cortar o sertão. Antes disso, nosso condutor, o Josias (a agência revezava os motoristas para não cansá-los), resolveu nos presentear, levando-nos até a Barra dos Remédios, um lugar paradisíaco nos arredores de Camocim. O dourado reluzente das dunas, os rasos bancos de areias para se espraiar e o isolamento do lugar são inebriantes.

Saímos de Camocim em direção a Parnaíba. Esse é o pior trajeto da viagem. Percorrem-se 126 quilômetros de asfalto (a rodovia PI-210) em condições precárias, durante o dia e sob o sol forte do semi-árido. Condições precárias mesmo. Tão ruim o asfalto que dava saudades dos momentos off road da aventura. Se o ar condicionado não estiver funcionando, com o calor escaldante, a Land Rover vira um microondas. No fim da tarde, chegamos em Parnaíba.

Parnaíba é uma cidade pacata do interior, a segunda maior do Piauí, com 130 mil habitantes. Embora desenvolvida, o tempo ali passa devagar. As ruas arborizadas e a leve brisa que sopra do delta amenizam a temperatura de latitude próxima à linha do equador.

Quinto dia

Na manhã seguinte, visitamos a Baía das Canárias, o segundo braço do Delta do Rio Parnaíba. Ao todo são cinco – de leste a oeste: Igaraçu, Canárias, Caju, Melancieira e Tutóia. O passeio pode ser feito de barco (com cerca de 8 horas de duração) ou de lancha. Começa na beira do rio, atravessa mangues e igarapés, até chegar em uma ponta da Ilha dos Poldros – já na desembocadura do Rio Parnaíba no Oceano Atlântico. Essa parada foi especial. Como fomos de lancha, permanecemos algumas horas solitárias naquela vastidão de areias extensas e douradas pelos raios solares, desfrutando a natureza inóspita daquela ponta. O guia foi dar uma voltinha e quase se esqueceu de nos buscar. Nem percebemos a demora. Não estávamos com nenhuma vontade de ir embora daquele pequeno paraíso. O passeio termina nas dunas do Morro Branco para apreciar o belíssimo pôr-do-sol do delta.

Sexto dia

Amanhece o sexto dia. O nosso destino final está mais perto. A ansiedade no ar contrasta com a quietude que vem dos desejos saciados dos últimos dias. Partimos para Caburé, a penúltima parada. Em Paulino Neves, voltamos para a aventura off road pelas areias do litoral nordestino. Já estávamos com saudades do vento afagando nossos rostos. Passamos ao lado dos Pequenos Lençóis. Bonito, mas uma degustação comedida se comparada à fartura dos grandes Lençóis Maranhenses. O auge do dia foram as praias de larga faixa de areia, retas e infinitas do Maranhão. As águas são escuras, mas o ineditismo da paisagem compensa. Um visual diferente das demais praias nordestinas, que nos faz sentir a imensidão do Brasil, de tantas geografias distintas, tantas paisagens peculiares, tantas belezas.

Chegamos ao cair da tarde em Caburé, um pequeno vilarejo de pescadores com charmosas pousadas e chalés. As construções são em cima da areia da praia. O lugar é especial: de um lado, o águas doces do Rio Preguiças; do outro, águas salgadas do Oceano Atlântico – a menos de dez minutos de caminhada de um extremo ao outro. Caburé encontra-se num fina extensão de terra, que termina na Foz do Rio Preguiças. A noite ali é cinematográfica. Ficamos cerca de duas horas sentadas simplesmente a admirar a lua, o movimento das nuvens, suas nuanças prateadas. O tempo podia parar… Acho que parou, mas como não consultei o relógio, sou incapaz de afirmar tal experiência metafísica.

Sétimo dia

Sétimo dia! É hora de subir o Rio Preguiças até Barreirinhas para imergir nas águas doces e cristalinas dos Lençóis Maranhenses. Se aproxima o fim da viagem inesquecível. O cansaço do corpo rapidamente dá lugar à saudade que cresce à medida que São Luís se aproxima. Até a próxima aventura!

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Partes de Mim

Mostra integrante do FotoRio 2005 – Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro, exposta na Estação Central do Metrô Rio em junho de 2005. Partes de mim são fragmentos fotográficos de viagens pela América do Sul. Patagônia, Serra dos Órgãos, Amazônia, Monte Roraima e Floresta da Tijuca. A sensação de liberdade, a imersão na paz, o encontro da pureza e alegria, o caminho da felicidade são alguns dos sentimentos e vivências que experimentei ao longo dessas viagens, despertando partes latentes e desconhecidas dentro de mim, expandindo a consciência do meu Ser. Por isso, denominei-as de viagens filosóficas-existencialistas… Um caminho em busca de autoconhecimento.

Amazônia Humana

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Amazônia Humana

Verde, Fluida e Humana

Michelle Glória*

Matéria publicada no  Jornal do Brasil de 05/dez/2004. 

Eu sou filho da terra

Aqui minha vida se encerra

Nesta paz na mata

Ninguém me mata

Ninguém faz guerra

Sou Parintinense. Enredo do boi azul Caprichoso.

Festival Folclórico do Boi de Parintins, 2004.

É assim, com músicas folclóricas, que os caboclos, os filhos da Amazônia, nos contam a sua história.

As letras transmitem um pouco o curso da vida na Amazônia: pacata à beira dos rios; florescente no tracejado das águas. O tempo do caboclo ribeirinho escoa no compasso da mãe natureza. Só de perto é possível sentir um pedacinho do modo de viver do povo da floresta e descobrir que a Amazônia, além de verde, fluida e exuberante, é também humana. E como é.

Para conhecer essa Amazônia diferente, uma forma inovadora de viajar é através do ecoturismo comunitário. Vislumbra-se um crescimento econômico, com justiça social e sem destruição do meio-ambiente. O modelo de turismo sustentável na Amazônia é resultado de iniciativas do governo brasileiro e organizações não governamentais. O Projeto Bagagem, resultado da iniciativa de duas paulistanas que associaram-se à ONG Projeto Saúde e Alegria, leva turistas interessados em desvendar o que a densa mata esconde. Sempre empenhando-se, é claro, em valorizar a vida e a cultura ribeirinhas.

As viagens amazônicas fluem pelas águas dos rios – Amazonas, Negro, Solimões, Tapajós etc. Nelas, a vida ribeirinha viceja. As águas são a moradia, a fonte de comida, a ligação com a vida urbana. O caboclo mora nas margens dos rios.  Alimenta-se dos peixes. Locomove-se singrando os intermináveis cursos d’água – verdadeiras estradas fluviais.

Conviver com os ribeirinhos é uma oportunidade autêntica de aprender sobre a cultura cabocla: suas danças típicas, as cerâmicas delicadas, o artesanato ancestral, a casa de farinha, a riqueza das plantas medicinais, as lendas, os mitos… Tudo com fortes traços da cultura dos antepassados, os indíos.

Lições da imensidão verde

SANTARÉM, PARÁ – Visitar a Amazônia cabocla por meio do ecoturismo comunitário – uma opção diferenciada dos roteiros tradicionais dos hotéis de selva – é uma nova maneira de se fazer turismo.

Até o momento, apenas cinco grupos de bagageiros – como são chamados os participantes do Projeto Bagagem – visitaram a região do Tapajós. A última expedição ocorreu em julho deste ano. Angela Brusamarello esteve nesse grupo e relembra a experiência de requintes sociológicos:

– O projeto é uma oportunidade única de fazer uma viagem rica, entrando em contato direto com as pessoas locais e conhecendo lugares onde o turismo tradicional não costuma chegar. Senti-me muito próxima à força da natureza, à imponência mágica da Amazônia,  emociona-se a auditora federal.

A preocupação do projeto é promover o desenvolvimento econômico e social das comunidades ribeirinhas, aliado, é claro, à preservação do meio ambiente e à valorização da cultura cabocla. Assim, a renda gerada pelos turistas é revertida para projetos de atendimento básico de saúde, abastecimento de água, educação ambiental, venda de artesanato etc.

– Surpreendi-me com a consciência ambiental da população local. O ribeirinho só tira da floresta o suficiente para sobreviver. Uma bonita e sustentável relação de troca igualitária entre o homem e a natureza – comenta Angela.

Além de aprender com o povo ribeirinho a se preocupar com o patrimônio natural e cultural da floresta, o ecoturista também precisa abrir mão do conforto. Deve gostar de rusticidade para poder se aventurar nas águas dos rios no balançar das redes, onde acomondam-se os viajantes. Com esses requisitos preenchidos, é só preparar a alma para adentrar no coração da mata.

O convívio com o povo da floresta é uma experiência intensa e marcante, de ricas trocas culturais. Difícil e retornar para a casa e não se deparar com a mente repleta de questionamentos.

–  Voltei transformada. Percebi como certos valores e costumes da nossa sociedade urbana são, às vezes, sem importância. Na Amazônia, junto aos ribeirinhos, descobri a importância de se valorizar a simplicidade da vida – conta Angela Brusamarello.

Filosofia que, em meio à imensidão verde da maior floresta do mundo, vem agregada ao respeito à natureza – capaz de suprir todas as necessidades da população: do alimento ao remédio, do meio de locomoção às ferramentas de caça, dos enfeites rituais aos utensílios do cotidiano.

Conhecer esse lado humano da Amazônia é embarcar em uma viagem que nos faz repensar o modo de vida nos grandes centros, a aceleração e a competitividade de nossa época. E resgatar sentimentos, há algum tempo, esquecidos: espírito de grupo, ajuda mútua, alegria na simplicidade de viver, amor e respeito pela natureza – fonte da vida.

Nove dias no saboroso sacolejar da rede

SANTARÉM, PARÁ_  Descer o rio Tapajós a partir de Santarém de barco é o passaporte para desvelar a Amazônia cabocla. Antes disso, porém, um esclarecimento importante: onde se dorme? Em uma rede no barco. Isso mesmo, dorme-se ao relento. É um turismo rústico, mas compensador. Dormir no convés da embarcação atracada na beira do rio pode ser a porta de entrada para os mistérios da selva. Enquanto o céu estrelado enfeitiça, sons de todos os tipos e decibéis ecoam. Na calada da noite, um barulho alto e agonizante, vinda da floresta, causa medo. O que será? Na manhã seguinte, o povo da floresta revela: são os macacos guaribas – de médio porte – que, segundo os nativos, uivam quando se sentem ameaçados por estranhos à mata.

Barco do Projeto Bagagem. Descendo o rio Tapajós.

A primeira parada do barco é em Alter-do-Chão, após três horas de viagem – e já descortina-se uma surpresa aos olhos dos que travam o primeiro contato com as paradisíacas paisagens: revigorantes praias fluviais despontam no horizonte. Nada melhor que um banho de água doce sob o sol forte de verão. No Norte, a denominação das estações é subvertida pela força dos céus: para o nortista é verão em julho, o início da época de seca, quando as chuvas cessam e os níveis dos rios abaixam.

Em Alter-do-Chão, acessível também por estrada e a meia hora de Santarém, as praias fluviais já possuem as marcas da urbanidade – mesas, cadeiras e guarda-sóis disponíveis na areia branca para o conforto dos visitantes. Para quem desejar apreciar a vista do alto, basta caminhar um pouquinho, percorrendo uma trilha aberta, e logo se alcança o topo do Morro de Alter. É inusitado naquela extensa planície admirar a Amazônia por um ângulo novo: do alto! No céu brilhante, nuvens corpulentas e esparsas ornamentam o diálogo entre o tapete verde e o imenso rio a findar no horizonte.

No segundo dia, um pequeno desvio e deixa-se o Tapajós para navegar pelas águas do rio Arapiuns. O destino é a comunidade ribeirinha Urucureá, a três de horas de barco de Alter-do-Chão. É o primeiro encontro com a face mais rústica, e por isso autêntica, da Amazônia cabocla. Como só há acesso fluvial, a comunidade consegue preservar seus costumes e cultura tradicionais – como a pesca e o artesanato. Urucureá destaca-se pelo primor de sua cestaria, feita com a palha de tucumã – palmeira de 10 a 15 metros de altura com espinho ao longo do tronco, nativa do Amazonas.

É possível acompanhar o processo de feitura das peças. Da colheita do tucumã, passando pelo tingimento à base de pigmentos naturais – urucum e crajiru (vermelhos), açafrão e mangarataia (amarelos) e anil (azul)-, até o entrelaçamento da palha. A simpática e sorridente Dona Maria mostra com alegria e satisfação todo o confeccionar. Os mais curiosos e habilidosos visitantes até tentam trançar algumas palhas já coloridas. Parece fácil. Vale a pena experimentar e descobrir a arte que está por trás dos dedos da cabocla ribeirinha. Pode-se comprar as cestas. Diretamente da mata para a cidade. A renda é dividida entre a mulher cesteira e o Grupo de Mulheres da comunidade.

Depois de dois dias em Urucureá, é hora de partir. O quarto e o quinto dias são para relaxar e refletir sobre a viagem. A embarcação pára na ponta de uma praia fluvial despovoada, sem sinais de urbanidade: a Ponta Grande – a três horas de barco de Urucureá.

Areias alvas e reluzentes, árvores alagadas, arbustos pequenos e retorcidos compõem o belo cenário. Ideal para o grupo conversar relaxado sobre as experiências vividas na comunidade: a troca humana e cultural entre visitantes e ribeirinhos, as vantagens e desvantagens do ecoturismo comunitário etc.

No sexto dia, chega-se à comunidade Suruacá, às margens do Rio Tapajós. Com 900 habitantes, é a maior comunidade no roteiro. Crianças brincam serelepes por todos os cantos. Os adolescentes já foram seduzidos pela modernidade: estão vidrados na tela do computador, novidade na selva. O Telecentro Cultural (o primeiro da região ribeirinha do Tapajós), inaugurado no fim de 2003, conecta os jovens ao mundo da Rede e abriga diversas atividades, como reuniões comunitárias, apresentação de danças folclóricas, teatro infantil…

Rica experiência é participar do processo de fabricação da farinha de mandioca, desde a colheita da planta até a torração do tubérculo moído. No roçado, o sol é escaldante. Já na casa de farinha, o telhado de palha concede uma sombra fresca. Passa-se a manhã ali, ajudando a descascar, ralar e torrar a raiz. A mandioca brava – espécie tóxica – é a mais encontrada na Amazônia e requer uma série de cuidados (como a imersão em água por uma noite) para ficar própria para o consumo. Os índios a domesticaram para a alimentação. Os caboclos utilizam a técnica herdada dos seus ancestrais até os dias de hoje.

Homenageando os bagageiros, a festiva Suruacá aproveita o novo espaço do Telecentro e apresenta suas atrações artísticas. O Gran Circo Mocorongo abre a noite, tirando gargalhadas eloqüentes da platéia. São parodiadas cenas do cotidiano dos ribeirinhos. Depois, é a vez da apresentação de uma opereta sobre o pássaro Talhamar. No decorrer da estória contada e cantada, percebe-se o respeito dos ribeirinhos aos animais, ao meio ambiente, o amor pela natureza – propiciadora da sobrevivência deles na mata. Por fim, para embalar a festa, bailarinos saracoteiam o carimbó – dança típica do Pará. As moças vestidas com longas e rodadas saias estampadas rodopiam em volta dos rapazes, com blusas de cores vivas.

Na manhã seguinte (sétimo dia), desperta-se com o balançar da rede. O barco, batizado de Saúde e Alegria, atravessa o Tapajós para chegar aos destinos seguintes que ficam na margem oposta: Jamaraquá e Maguary. O Saúde e Alegria navega cedinho para evitar os ventos fortes, formadores das ondas… aquelas que transformam os rios da Amazônia num verdadeiro mar doce!

Em Jamaraquá, na Flona do Tapajós, penetra-se um pouco mais na selva. Ribeirinhos orientados pelo Ibama guiam os visitantes ao interior da mata. Ali, sente-se a magnitude e a riqueza da Floresta Amazônica, descobrindo-se um pouco dos seus segredos. E que segredos! Seu Joaquim, como gosta de ser chamado o guia local, pega, ligeiro, galhos de palmeira, ainda verdes, caídos pelo chão e rapidamente entrelaça as folhas, surgindo aos olhos encantados dos visitantes uma mochila natural e resistente. Para quê? Nela, a mamãe leva o bebê para o roçado. Adiante, Seu Joaquim tira fogo da mata. Com um gravetinho minúsculo, acende uma chama com a resina do jatobá. As descobertas não param por aí. Seu Joaquim retira água do cipó. Apresenta frutos de sabor exótico. Na selva, ninguém morre de fome e sede. O último deslumbramento é admirar a imponência da sumaúma – árvore cuja altura chega até 40 metros e diâmetro, até 1,60 metro.

Já na chegada à comunidade Maguary, vêem-se os vestígios da extração do látex das seringueiras. De maneira moderada para não exaurir toda a seiva da árvore. Alguns minutos de caminhada e se está na pequena fábrica de produção de couro ecológico. O processo é artesanal. O látex preparado é colocado sobre cilindros giratórios até atingir a espessura desejada. Os tapetes de látex são secados e depois levados às mãos de habilidosas costureiras. Elas confeccionam lindas bolsas. E, para surpresa geral, os modelitos estão antenados com as últimas tendências da moda nas cidades. Para se despedir de Maguary, um passeio de canoa pelos refrescantes igarapés.

Nono dia, é hora de partir. Oito horas navegando pelo Rio Tapajós até Santarém. Tempo que se gasta reavivando na memória os momentos passados junto aos ribeirinhos. Registrando no diário as impressões vividas. Todos retornam para a casa de alguma forma modificados. Tocados com a viagem que, além dos rios, navega pelo interior da alma cabocla. Cientes da importância do verde. Uma viagem de conscientização social e ambiental. Cidadania e turismo de mãos dadas. Viagem que faz aflorar o espírito brasileiro.

Diário de um barco-gaiola           

O trajeto de barco entre Parintins e Santarém reserva uma rica e curiosa experiência. Cedinho, por volta das 8 h, chegamos à estação hidroviária de Parintins. Na fartura fluvial amazônica, as rodovias são substituídas por hidrovias.

O barco, batizado de Dona Nilza, não chegava ao porto. Vinha de Manaus. Quiçá, as águas vigorosas do Amazonas atrasaram o barco-gaiola… Uma crença popular: as águas do Amazonas correm com força porque o rio é jovem e valente, arrastando tudo por onde passa – o que dá a sua cor barrenta. Vigor que pode atrasar a chegada das embarcações.

Por volta das 10 h, o Dona Nilza atracou. Um rebuliço no embarque e desembarque. Uns saindo com sacolas, caixotes, fazendo verdadeiras mudanças. Outros querendo entrar. Tudo ao mesmo tempo e pelo mesmo lugar, como se as leis da física não valessem por aquelas bandas. Naquela confusão, quando percebemos que o Dona Nilza iria partir, pulamos para dentro do barco. Difícil foi encontrarmos ganchos para pendurar nossas redes. Ufa! Por pouco não conseguimos. Nossas companheiras de rede eram senhoras bem simpáticas e sorridentes. Ah! O barco se chama gaiola porque as redes ficam uma do lado da outra. Sentimo-nos iguais a passarinhos na gaiola, apertados como no desfile de um bloco de carnaval pelas ruas do Rio.

Após alguns minutos, Parintins – cidadezinha nascida numa ilha no meio do Amazonas e famosa internacionalmente devido ao festival folclórico que acontece nos três últimos dias de junho – fica para trás. À frente, o céu-prateado e a extensa estrada fluvial.

Passageiros passam o tempo jogando dominó. Meninas dançam o brega – uma mistura de forró com axé, sucesso em toda a Região Norte. Alguns, simplesmente balançam nas redes. Ou conversam com outros viajantes. Inspiração para escrever impressões da aventura neste diário de bordo. 

São muitas as histórias ouvidas na viagem. Pessoas simples que foram tentar a vida em Manaus – caixas de supermercado, ajudantes de obra, faixineiros etc – retornam para a casa de férias, depois de anos, para reverem os familiares. Outros voltam de vez. Um povo sofrido, todos saudosos da vida tranqüila da beira do rio. Só querem um pouco de dignidade nessa vida. Um rapaz pobre, de coração humilde, impressiona: diz que na sua vida nada mais falta além de um amor. Tão belo escutar essas palavras daquele rapaz tão simples.

O entardecer cai. As margens do Amazonas, pequenas ao lado (o rio é muito largo), começam a desaparecer. O Dona Nilza segue solitário na penumbra da noite que chega. Os passageiros serenos recolhem-se nas suas redes. Esperam a próxima parada em Santarém, já no Pará. 

Durante a noite, a venda de bebida alcóolica anima os passageiros e, como em qualquer bar, alguns podem se exaltar e causar inconvenientes.

O Dona Nilza atraca na estação hidroviária de Santarém. Já é quase 1 h da madrugada. Passageiros saltam ansiosos. Vão ao encontro de seus lares. Outros permanecem no barco. Dormirão lá, aguardando a partida na manhã seguinte para Belém. Saltamos também, na ânsia de tomar o barco do Projeto Bagagem no dia seguinte e nos embrenhar na Amazônia cabocla ribeirinha. Também é possível fazer o trajeto entre Parintins e Santarém em confortáveis barcos com cabines. Mas qual é a graça?

Conforto Flutuante

TEFÉ, AMAZONAS – Criado em 1999 pelo governo federal, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá busca o crescimento econômico da região, sem alterar o uso tradicional dos recursos naturais e os costumes locais já perenes.

O instituto está localizado em uma unidade de conservação do estado do Amazonas, no Médio Solimões. Em 1990, a área foi considerada Estação Ecológica. Em 1996, com a aprovação do Plano de Manejo –  utilização racional dos recursos naturais -, a região foi alçada à categoria de Reserva de Desenvolvimento Sustentável.

É possível conhecer a reserva com bastante conforto. Além de atividades como passeio de canoa e visitas às comunidades ribeirinhas, a programação inclui caminhadas em trilhas para observação da fauna e flora. São oferecidos pacotes de três dias (R$ 770) ou quatro noites (R$ 900) com todas as refeições incluídas. Os pernoites acontecem na Pousada Flutuante Uacari, que dispõe de boa infra-estrutura, similar à encontrada em outros destinos turísticos mais badalados: restaurante, bar, biblioteca, sala de vídeo.

Para quem não quiser sacolejar em uma rede no meio dos rios amazônicos, nem dormir ao relento, é uma boa oportunidade de fazer o ecoturismo comunitário. Ou seja, sem agressões ambientais e criando condições de sustento à população que, dessa forma, segue preservando sua riqueza cultural. Os viajantes interessados em experiências interativas e originais, diferentes do turismo de massa pasteurizado, agradecem.

No balanço das águas

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Como chegar

De avião – a Varig (0300-788-7000) opera vôos diários do Rio a Manaus (para quem deseja descer de barco o Rio Amazonas) ou vôos diretos do Rio a Santarém.

Há companhias locais que operam na região com aviões de porte pequeno.

De barco – De Manaus a Santarém, são dois dias de barco. Nos barcos-gaiola, além da rede, há opção de viajar em cabines fechadas. Preços a partir de R$ 100,00. Informações: Marques Pinto (92) 523 2828. De Belém a Santarém, são três dias de barco. Preços a partir de R$ 140,00. Informações: Alves & Rodrigues (91) 225 1691 e Enasa (91) 257 0299.

Quem leva

Projeto Bagagem, em parceria com a Ong Projeto Saúde e Alegria. A próxima expedição acontece de 15 a 23 de janeiro. Preço por pessoa: R$ 1.050.

Na internet

http://www.projetobagagem.org (as inscrições já estão abertas)

http://www.saudeealegria.org.br

http://www.mamiraua.org.br

http://www.ibama.gov.br

Informações turísticas

Manaustur – (92) 622 4986

Agência Rio Amazonas – (92) 621 4359

Marinha Mercante – (92) 633 1224

Santarém Tur – (93) 522 4847

Belemtur – (91) 242 0033/0900

Paratur – (91) 212 0575

Preparativos

Vacina de febre-amarela, no mínimo, 10 dias antes da viagem (http://www.bio.fiocruz.br).

O que levar

Repelentes para afastar os carapanãs (insetos). Bonés, blusas e calças compridas e filtro solar para se proteger do sol a pino.

Uma manta para as noites na rede ao relento (ninguém imagina, mas sopra uma brisa bem fria por lá). Máquina fotográfica (e muitos filmes), filmadora e muita disposição para encarar o balanço das águas.

* Michelle Glória é pós-graduanda em Fotografia Social.

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Corredor Austral

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