Lençóis Maranhenses

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Aventura no litoral: Lençóis Maranhenses

Um charmoso roteiro de jipe entre o Ceará e o Maranhão passa por algumas das mais belas e desertas praias do Brasil

Michelle Glória

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 11/set/ 2005

Quem não gosta de se banhar em águas cristalinas e frescas como as que escorrem das cachoeiras? Programa revigorante e refrescante. Em um dia daqueles, ensolarado, com céu azul de brigadeiro, então… torna-se diversão ainda mais saborosa. Imagine todos esse deleite tendo como cenário uma praia deserta, com esparsos coqueiros. Mergulhar nas lagoas dos Lençóis Maranhenses é exatamente assim: um banho fabuloso em águas doces, envolto por areias alvas e reluzentes, sob calorosos raios solares, na imensidão desse tão particular deserto brasileiro – pontilhado de incontáveis oásis. Desfruta-se a sensação de estar em uma praia isolada, com o frescor das águas das montanhas. Beira o inacreditável!

Não é à toa que o lugar tornou-se rapidamente um dos destinos turísticos do país que mais seduzem viajantes, do Brasil e do exterior. Tanta procura, se ainda não chegou a equipar a infra-estrutura turística com hotéis de luxo ou restaurantes estrelados, como grande parte de recantos nordestinos de caráter similar, diversificou as possibilidades de meios de se chegar nessa porção de paraíso. Uma das mais interessantes maneiras de alcançar os Lençóis Maranhenses é através do roteiro que parte de Fortaleza (ou vice-versa) em jipes 4 x 4. Margeando o oceano, rasgando as areias sem-fim, o bravo veículo transforma a viagem em uma inesquecível aventura, que dura entre quatro e sete dias. Outra possibilidade é chegar voando, em um dos aviões que fazem a rota São-Luís Barreirinhas. Um vôo inesquecível.

Tempo de curtir o fim da temporada de cheia

Resta apenas pouco mais de um mês para se curtir essa maravilha natural ainda este ano. Isso porque passado o período das chuvas, de dezembro a julho, as lagoas começam a secar, até sumirem do mapa para reaparecerem a partir do início do ano. Até o final de outubro vale a pena visitar a região. As vantagens de se conhecer os Lençóis agora, na calmaria da baixa temporada, são os preços convidativos e os lugares mais vazios – ideal para quem gosta de economia e sossego, de preferência bem acompanhado para aproveitar as noites estreladas. E, é claro, o nível das águas ainda permitem belas braçadas naquela paisagem que transforma o Maranhão em um dos mais cobiçados destinos brasileiros. De qualquer forma, há as lagoas perenes: a Azul, a Bonita e a do Peixe, propícias à visitação em qualquer época do ano.

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, criado em 1981, possui 1.550 quilômetros quadrados (do tamanho da cidade de São Paulo), formado por dunas e lagoas (temporárias e constantes). As montanhas de areia estendem-se por até 90 quilômetros do litoral maranhense e 50 quilômetros continente adentro. Como todo deserto, os Lençóis Maranhenses, o nosso intrigante deserto brasileiro, também possui seus oásis. Um dos mais famosos localiza-se em Queimado dos Britos – um pequeno povoado rústico no coração dos Lençóis, onde dorme-se em rede, nos casebres dos moradores, sob o sopro da brisa noturna, o brilho das estrelas e, em noite de lua cheia, sob luminosos raios lunares.

A porta de entrada aos Lençóis Maranhenses é Barreirinhas – cidadezinha interiorana, com 40 mil habitantes, a 272 quilômetros de São Luís. Possui a melhor estrutura turística local: pousadas, restaurantes, lojas de suvenir, agências de turismo. Os passeios mais badalados saem de lá.

A visitação às famosas lagoas Azul, Bonita e do Peixe é feito em um dia em carro 4 x 4 – Toyota e Land Rover são as marcas que dominam as areias – transformados em jardineiras para o conforto do turista. Aliás, a melhor maneira de se chegar à região é a bordo de bravos jipes (leia nas páginas 4 e 5 todo o roteiro), que partem do Ceará e chegam aos Lençóis rasgando as areias à beira-mar – cortando paisagens de sonho, alguns dos mais belos visuais do Brasil.

De Barreirinhas até a entrada do parque são 40 minutos de trilha. Os obstáculos do percurso são muitos: córregos a serem atravessados, imensos lamaçais (que muitas vezes atolam mesmo a jardineira, por isso os passeios acontecem em dois carros), e a mata um pouco fechada (cuidado com os galhos salientes que entram pelas laterais!). O melhor do trajeto são os cajueiros. Uma delícia é tirar uma fruta suculenta, madurinha, do pé e comer na hora!

Sete dias emocionantes entre dunas e praias

Partimos para a aventura de Fortaleza, uma das alternativas de ponto de partida ou chegada para a viagem de jipe entre o Maranhão e o Ceará. Diversas operadoras de turismo já oferecem o roteiro. Inclusive, na Praia de Iracema, na capital cearense, há vários veículos estacionados com fotos da viagem instigando os visitantes a participar da aventura. Pela manhã, o nosso condutor, Paulo (um paulistano recém-chegado nas redondezas, empolgado com a nova opção de trabalho ao ar livre), já batia à porta do hotel para começarmos a aventura 4 x 4. Estávamos, eu e uma amiga que me acompanharia, entusiasmadas e curiosas para saber o que nos aguardava. Dali a sete dias estaríamos nos sonhados Lençóis Maranhenses. Até lá, muitas praias, muita areia e muitas histórias para contar.

Primeiro dia

Seguimos pelo asfalto até as famosas dunas de Cumbuco, a 28 quilômetros de Fortaleza. A partir daí, entramos na areia. Já estávamos ansiosas. O condutor diminuiu a pressão dos pneus para facilitar a condução na areia fofa, fez umas piruetas, mostrando destreza na direção, e lá fomos nós em direção ao nosso destino! Pegamos a praia. A suave brisa a acariciar as faces, as pequenas falésias, o visual deslumbrante do mar mergulharam o nosso espírito em paz. Que delícia de programa esse…

Parávamos ao nosso bel-prazer – aliás, este é um dos trunfos desta viagem: ter nas mãos o controle da programação, é só pedir para parar, para dormir ou comer, que o motorista prontamente nos atende. Muita luxúria para pessoas tão comuns: motorista habilitado a trafegar em condições ruins à disposição, praias belíssimas só para nós, o conforto de uma Land Rover… (Isso dentro do quanto pode ser confortável uma Land Rover, famosa por balançar tanto quanto pela capacidade de superar os mais adversos obstáculos). Inacreditável. Parecia um sonho. Ah! E tudo isso a um preço acessível – custa por volta de R$ 1.800 por pessoa, com tudo incluído, inclusive pousada, exceto parte aérea.

Almoçamos na Praia de Taíba, naturalmente um prato simples: peixe frito, arroz, batata frita e salada. Mas a comida bem caseira e o peixe fresquinho enriquecem o prazer à mesa. Preguiça foi seguir viagem, após se fartar de tanto comer e bebericar algumas doses de caipirinha. Deu uma moleza…

À vista do adiantado da hora, demos um esticada até a Barra de Mundaú para apreciá-la antes do pôr-do-sol. Foi o ponto alto do dia – um local de singular beleza misturado ao nosso estado de êxtase – parecíamos duas meninas eufóricas. Rolávamos nas dunas até as margens da praia. Nos sentíamos leves como o vento… Ainda mais sob o efeito de certas substâncias etílicas…

Saímos da areia ao cair da noite e voltamos para o asfalto. Foi uma puxada pesada até Jericoacoara – e também um pouco cansativo. Rodamos cerca de 200 quilômetros à noite. Chegamos em Jeri (como os íntimos chamam a vila) já tarde da noite. Para quem tiver mais tempo, vale a pena dividir esse trajeto em dois dias.

Segundo e terceiro dias

Curtimos Jeri dois dias. Fomos em todos os pontos turísticos badalados: Pedra Furada, Praia do Preá, Lagoa de Jijoca, Praia do Francês etc – tudo com o suporte do Land Rover, pois apenas bugres e veículos 4 x 4 são capazes de chegar à grande maioria dos principais pontos turísticos de Jericoacoara. Ao entardecer, escalamos a duna ao lado da vila para assistir ao concorrido e celebrado pôr-do-sol. Saracoteamos na balada mais efervescente: o bar do forró. Requebramos os quadris sob o céu estrelado até o sol raiar. Foram dias animados e que nos permitiram seguir viagem descansadas… Um outro ponto interessante desse programa, aliás, é justamente poder escolher os locais onde gastaremos mais tempo: nossa opção foi por Jericoacoara, mas poderia ter sido o Delta do Parnaíba ou os Lençóis Maranhenses. Aliás, a quem tiver tempo e dinheiro é recomendável ficar dois dias ao menois em cada um desses lugares.

Quarto dia

No amanhecer do quarto dia, partimos para a nossa próxima parada: o Delta do Parnaíba. Passamos pela formosa praia de Nova Tatajuba (a velha aldeia foi engolida pelas dunas). Atravessamos a Lagoa Grande até chegar em Camocim, onde deixaríamos o litoral e entraríamos para cortar o sertão. Antes disso, nosso condutor, o Josias (a agência revezava os motoristas para não cansá-los), resolveu nos presentear, levando-nos até a Barra dos Remédios, um lugar paradisíaco nos arredores de Camocim. O dourado reluzente das dunas, os rasos bancos de areias para se espraiar e o isolamento do lugar são inebriantes.

Saímos de Camocim em direção a Parnaíba. Esse é o pior trajeto da viagem. Percorrem-se 126 quilômetros de asfalto (a rodovia PI-210) em condições precárias, durante o dia e sob o sol forte do semi-árido. Condições precárias mesmo. Tão ruim o asfalto que dava saudades dos momentos off road da aventura. Se o ar condicionado não estiver funcionando, com o calor escaldante, a Land Rover vira um microondas. No fim da tarde, chegamos em Parnaíba.

Parnaíba é uma cidade pacata do interior, a segunda maior do Piauí, com 130 mil habitantes. Embora desenvolvida, o tempo ali passa devagar. As ruas arborizadas e a leve brisa que sopra do delta amenizam a temperatura de latitude próxima à linha do equador.

Quinto dia

Na manhã seguinte, visitamos a Baía das Canárias, o segundo braço do Delta do Rio Parnaíba. Ao todo são cinco – de leste a oeste: Igaraçu, Canárias, Caju, Melancieira e Tutóia. O passeio pode ser feito de barco (com cerca de 8 horas de duração) ou de lancha. Começa na beira do rio, atravessa mangues e igarapés, até chegar em uma ponta da Ilha dos Poldros – já na desembocadura do Rio Parnaíba no Oceano Atlântico. Essa parada foi especial. Como fomos de lancha, permanecemos algumas horas solitárias naquela vastidão de areias extensas e douradas pelos raios solares, desfrutando a natureza inóspita daquela ponta. O guia foi dar uma voltinha e quase se esqueceu de nos buscar. Nem percebemos a demora. Não estávamos com nenhuma vontade de ir embora daquele pequeno paraíso. O passeio termina nas dunas do Morro Branco para apreciar o belíssimo pôr-do-sol do delta.

Sexto dia

Amanhece o sexto dia. O nosso destino final está mais perto. A ansiedade no ar contrasta com a quietude que vem dos desejos saciados dos últimos dias. Partimos para Caburé, a penúltima parada. Em Paulino Neves, voltamos para a aventura off road pelas areias do litoral nordestino. Já estávamos com saudades do vento afagando nossos rostos. Passamos ao lado dos Pequenos Lençóis. Bonito, mas uma degustação comedida se comparada à fartura dos grandes Lençóis Maranhenses. O auge do dia foram as praias de larga faixa de areia, retas e infinitas do Maranhão. As águas são escuras, mas o ineditismo da paisagem compensa. Um visual diferente das demais praias nordestinas, que nos faz sentir a imensidão do Brasil, de tantas geografias distintas, tantas paisagens peculiares, tantas belezas.

Chegamos ao cair da tarde em Caburé, um pequeno vilarejo de pescadores com charmosas pousadas e chalés. As construções são em cima da areia da praia. O lugar é especial: de um lado, o águas doces do Rio Preguiças; do outro, águas salgadas do Oceano Atlântico – a menos de dez minutos de caminhada de um extremo ao outro. Caburé encontra-se num fina extensão de terra, que termina na Foz do Rio Preguiças. A noite ali é cinematográfica. Ficamos cerca de duas horas sentadas simplesmente a admirar a lua, o movimento das nuvens, suas nuanças prateadas. O tempo podia parar… Acho que parou, mas como não consultei o relógio, sou incapaz de afirmar tal experiência metafísica.

Sétimo dia

Sétimo dia! É hora de subir o Rio Preguiças até Barreirinhas para imergir nas águas doces e cristalinas dos Lençóis Maranhenses. Se aproxima o fim da viagem inesquecível. O cansaço do corpo rapidamente dá lugar à saudade que cresce à medida que São Luís se aproxima. Até a próxima aventura!

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Partes de Mim

Mostra integrante do FotoRio 2005 – Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro, exposta na Estação Central do Metrô Rio em junho de 2005. Partes de mim são fragmentos fotográficos de viagens pela América do Sul. Patagônia, Serra dos Órgãos, Amazônia, Monte Roraima e Floresta da Tijuca. A sensação de liberdade, a imersão na paz, o encontro da pureza e alegria, o caminho da felicidade são alguns dos sentimentos e vivências que experimentei ao longo dessas viagens, despertando partes latentes e desconhecidas dentro de mim, expandindo a consciência do meu Ser. Por isso, denominei-as de viagens filosóficas-existencialistas… Um caminho em busca de autoconhecimento.

Amazônia Humana

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Amazônia Humana

Verde, Fluida e Humana

Michelle Glória*

Matéria publicada no  Jornal do Brasil de 05/dez/2004. 

Eu sou filho da terra

Aqui minha vida se encerra

Nesta paz na mata

Ninguém me mata

Ninguém faz guerra

Sou Parintinense. Enredo do boi azul Caprichoso.

Festival Folclórico do Boi de Parintins, 2004.

É assim, com músicas folclóricas, que os caboclos, os filhos da Amazônia, nos contam a sua história.

As letras transmitem um pouco o curso da vida na Amazônia: pacata à beira dos rios; florescente no tracejado das águas. O tempo do caboclo ribeirinho escoa no compasso da mãe natureza. Só de perto é possível sentir um pedacinho do modo de viver do povo da floresta e descobrir que a Amazônia, além de verde, fluida e exuberante, é também humana. E como é.

Para conhecer essa Amazônia diferente, uma forma inovadora de viajar é através do ecoturismo comunitário. Vislumbra-se um crescimento econômico, com justiça social e sem destruição do meio-ambiente. O modelo de turismo sustentável na Amazônia é resultado de iniciativas do governo brasileiro e organizações não governamentais. O Projeto Bagagem, resultado da iniciativa de duas paulistanas que associaram-se à ONG Projeto Saúde e Alegria, leva turistas interessados em desvendar o que a densa mata esconde. Sempre empenhando-se, é claro, em valorizar a vida e a cultura ribeirinhas.

As viagens amazônicas fluem pelas águas dos rios – Amazonas, Negro, Solimões, Tapajós etc. Nelas, a vida ribeirinha viceja. As águas são a moradia, a fonte de comida, a ligação com a vida urbana. O caboclo mora nas margens dos rios.  Alimenta-se dos peixes. Locomove-se singrando os intermináveis cursos d’água – verdadeiras estradas fluviais.

Conviver com os ribeirinhos é uma oportunidade autêntica de aprender sobre a cultura cabocla: suas danças típicas, as cerâmicas delicadas, o artesanato ancestral, a casa de farinha, a riqueza das plantas medicinais, as lendas, os mitos… Tudo com fortes traços da cultura dos antepassados, os indíos.

Lições da imensidão verde

SANTARÉM, PARÁ – Visitar a Amazônia cabocla por meio do ecoturismo comunitário – uma opção diferenciada dos roteiros tradicionais dos hotéis de selva – é uma nova maneira de se fazer turismo.

Até o momento, apenas cinco grupos de bagageiros – como são chamados os participantes do Projeto Bagagem – visitaram a região do Tapajós. A última expedição ocorreu em julho deste ano. Angela Brusamarello esteve nesse grupo e relembra a experiência de requintes sociológicos:

– O projeto é uma oportunidade única de fazer uma viagem rica, entrando em contato direto com as pessoas locais e conhecendo lugares onde o turismo tradicional não costuma chegar. Senti-me muito próxima à força da natureza, à imponência mágica da Amazônia,  emociona-se a auditora federal.

A preocupação do projeto é promover o desenvolvimento econômico e social das comunidades ribeirinhas, aliado, é claro, à preservação do meio ambiente e à valorização da cultura cabocla. Assim, a renda gerada pelos turistas é revertida para projetos de atendimento básico de saúde, abastecimento de água, educação ambiental, venda de artesanato etc.

– Surpreendi-me com a consciência ambiental da população local. O ribeirinho só tira da floresta o suficiente para sobreviver. Uma bonita e sustentável relação de troca igualitária entre o homem e a natureza – comenta Angela.

Além de aprender com o povo ribeirinho a se preocupar com o patrimônio natural e cultural da floresta, o ecoturista também precisa abrir mão do conforto. Deve gostar de rusticidade para poder se aventurar nas águas dos rios no balançar das redes, onde acomondam-se os viajantes. Com esses requisitos preenchidos, é só preparar a alma para adentrar no coração da mata.

O convívio com o povo da floresta é uma experiência intensa e marcante, de ricas trocas culturais. Difícil e retornar para a casa e não se deparar com a mente repleta de questionamentos.

–  Voltei transformada. Percebi como certos valores e costumes da nossa sociedade urbana são, às vezes, sem importância. Na Amazônia, junto aos ribeirinhos, descobri a importância de se valorizar a simplicidade da vida – conta Angela Brusamarello.

Filosofia que, em meio à imensidão verde da maior floresta do mundo, vem agregada ao respeito à natureza – capaz de suprir todas as necessidades da população: do alimento ao remédio, do meio de locomoção às ferramentas de caça, dos enfeites rituais aos utensílios do cotidiano.

Conhecer esse lado humano da Amazônia é embarcar em uma viagem que nos faz repensar o modo de vida nos grandes centros, a aceleração e a competitividade de nossa época. E resgatar sentimentos, há algum tempo, esquecidos: espírito de grupo, ajuda mútua, alegria na simplicidade de viver, amor e respeito pela natureza – fonte da vida.

Nove dias no saboroso sacolejar da rede

SANTARÉM, PARÁ_  Descer o rio Tapajós a partir de Santarém de barco é o passaporte para desvelar a Amazônia cabocla. Antes disso, porém, um esclarecimento importante: onde se dorme? Em uma rede no barco. Isso mesmo, dorme-se ao relento. É um turismo rústico, mas compensador. Dormir no convés da embarcação atracada na beira do rio pode ser a porta de entrada para os mistérios da selva. Enquanto o céu estrelado enfeitiça, sons de todos os tipos e decibéis ecoam. Na calada da noite, um barulho alto e agonizante, vinda da floresta, causa medo. O que será? Na manhã seguinte, o povo da floresta revela: são os macacos guaribas – de médio porte – que, segundo os nativos, uivam quando se sentem ameaçados por estranhos à mata.

Barco do Projeto Bagagem. Descendo o rio Tapajós.

A primeira parada do barco é em Alter-do-Chão, após três horas de viagem – e já descortina-se uma surpresa aos olhos dos que travam o primeiro contato com as paradisíacas paisagens: revigorantes praias fluviais despontam no horizonte. Nada melhor que um banho de água doce sob o sol forte de verão. No Norte, a denominação das estações é subvertida pela força dos céus: para o nortista é verão em julho, o início da época de seca, quando as chuvas cessam e os níveis dos rios abaixam.

Em Alter-do-Chão, acessível também por estrada e a meia hora de Santarém, as praias fluviais já possuem as marcas da urbanidade – mesas, cadeiras e guarda-sóis disponíveis na areia branca para o conforto dos visitantes. Para quem desejar apreciar a vista do alto, basta caminhar um pouquinho, percorrendo uma trilha aberta, e logo se alcança o topo do Morro de Alter. É inusitado naquela extensa planície admirar a Amazônia por um ângulo novo: do alto! No céu brilhante, nuvens corpulentas e esparsas ornamentam o diálogo entre o tapete verde e o imenso rio a findar no horizonte.

No segundo dia, um pequeno desvio e deixa-se o Tapajós para navegar pelas águas do rio Arapiuns. O destino é a comunidade ribeirinha Urucureá, a três de horas de barco de Alter-do-Chão. É o primeiro encontro com a face mais rústica, e por isso autêntica, da Amazônia cabocla. Como só há acesso fluvial, a comunidade consegue preservar seus costumes e cultura tradicionais – como a pesca e o artesanato. Urucureá destaca-se pelo primor de sua cestaria, feita com a palha de tucumã – palmeira de 10 a 15 metros de altura com espinho ao longo do tronco, nativa do Amazonas.

É possível acompanhar o processo de feitura das peças. Da colheita do tucumã, passando pelo tingimento à base de pigmentos naturais – urucum e crajiru (vermelhos), açafrão e mangarataia (amarelos) e anil (azul)-, até o entrelaçamento da palha. A simpática e sorridente Dona Maria mostra com alegria e satisfação todo o confeccionar. Os mais curiosos e habilidosos visitantes até tentam trançar algumas palhas já coloridas. Parece fácil. Vale a pena experimentar e descobrir a arte que está por trás dos dedos da cabocla ribeirinha. Pode-se comprar as cestas. Diretamente da mata para a cidade. A renda é dividida entre a mulher cesteira e o Grupo de Mulheres da comunidade.

Depois de dois dias em Urucureá, é hora de partir. O quarto e o quinto dias são para relaxar e refletir sobre a viagem. A embarcação pára na ponta de uma praia fluvial despovoada, sem sinais de urbanidade: a Ponta Grande – a três horas de barco de Urucureá.

Areias alvas e reluzentes, árvores alagadas, arbustos pequenos e retorcidos compõem o belo cenário. Ideal para o grupo conversar relaxado sobre as experiências vividas na comunidade: a troca humana e cultural entre visitantes e ribeirinhos, as vantagens e desvantagens do ecoturismo comunitário etc.

No sexto dia, chega-se à comunidade Suruacá, às margens do Rio Tapajós. Com 900 habitantes, é a maior comunidade no roteiro. Crianças brincam serelepes por todos os cantos. Os adolescentes já foram seduzidos pela modernidade: estão vidrados na tela do computador, novidade na selva. O Telecentro Cultural (o primeiro da região ribeirinha do Tapajós), inaugurado no fim de 2003, conecta os jovens ao mundo da Rede e abriga diversas atividades, como reuniões comunitárias, apresentação de danças folclóricas, teatro infantil…

Rica experiência é participar do processo de fabricação da farinha de mandioca, desde a colheita da planta até a torração do tubérculo moído. No roçado, o sol é escaldante. Já na casa de farinha, o telhado de palha concede uma sombra fresca. Passa-se a manhã ali, ajudando a descascar, ralar e torrar a raiz. A mandioca brava – espécie tóxica – é a mais encontrada na Amazônia e requer uma série de cuidados (como a imersão em água por uma noite) para ficar própria para o consumo. Os índios a domesticaram para a alimentação. Os caboclos utilizam a técnica herdada dos seus ancestrais até os dias de hoje.

Homenageando os bagageiros, a festiva Suruacá aproveita o novo espaço do Telecentro e apresenta suas atrações artísticas. O Gran Circo Mocorongo abre a noite, tirando gargalhadas eloqüentes da platéia. São parodiadas cenas do cotidiano dos ribeirinhos. Depois, é a vez da apresentação de uma opereta sobre o pássaro Talhamar. No decorrer da estória contada e cantada, percebe-se o respeito dos ribeirinhos aos animais, ao meio ambiente, o amor pela natureza – propiciadora da sobrevivência deles na mata. Por fim, para embalar a festa, bailarinos saracoteiam o carimbó – dança típica do Pará. As moças vestidas com longas e rodadas saias estampadas rodopiam em volta dos rapazes, com blusas de cores vivas.

Na manhã seguinte (sétimo dia), desperta-se com o balançar da rede. O barco, batizado de Saúde e Alegria, atravessa o Tapajós para chegar aos destinos seguintes que ficam na margem oposta: Jamaraquá e Maguary. O Saúde e Alegria navega cedinho para evitar os ventos fortes, formadores das ondas… aquelas que transformam os rios da Amazônia num verdadeiro mar doce!

Em Jamaraquá, na Flona do Tapajós, penetra-se um pouco mais na selva. Ribeirinhos orientados pelo Ibama guiam os visitantes ao interior da mata. Ali, sente-se a magnitude e a riqueza da Floresta Amazônica, descobrindo-se um pouco dos seus segredos. E que segredos! Seu Joaquim, como gosta de ser chamado o guia local, pega, ligeiro, galhos de palmeira, ainda verdes, caídos pelo chão e rapidamente entrelaça as folhas, surgindo aos olhos encantados dos visitantes uma mochila natural e resistente. Para quê? Nela, a mamãe leva o bebê para o roçado. Adiante, Seu Joaquim tira fogo da mata. Com um gravetinho minúsculo, acende uma chama com a resina do jatobá. As descobertas não param por aí. Seu Joaquim retira água do cipó. Apresenta frutos de sabor exótico. Na selva, ninguém morre de fome e sede. O último deslumbramento é admirar a imponência da sumaúma – árvore cuja altura chega até 40 metros e diâmetro, até 1,60 metro.

Já na chegada à comunidade Maguary, vêem-se os vestígios da extração do látex das seringueiras. De maneira moderada para não exaurir toda a seiva da árvore. Alguns minutos de caminhada e se está na pequena fábrica de produção de couro ecológico. O processo é artesanal. O látex preparado é colocado sobre cilindros giratórios até atingir a espessura desejada. Os tapetes de látex são secados e depois levados às mãos de habilidosas costureiras. Elas confeccionam lindas bolsas. E, para surpresa geral, os modelitos estão antenados com as últimas tendências da moda nas cidades. Para se despedir de Maguary, um passeio de canoa pelos refrescantes igarapés.

Nono dia, é hora de partir. Oito horas navegando pelo Rio Tapajós até Santarém. Tempo que se gasta reavivando na memória os momentos passados junto aos ribeirinhos. Registrando no diário as impressões vividas. Todos retornam para a casa de alguma forma modificados. Tocados com a viagem que, além dos rios, navega pelo interior da alma cabocla. Cientes da importância do verde. Uma viagem de conscientização social e ambiental. Cidadania e turismo de mãos dadas. Viagem que faz aflorar o espírito brasileiro.

Diário de um barco-gaiola           

O trajeto de barco entre Parintins e Santarém reserva uma rica e curiosa experiência. Cedinho, por volta das 8 h, chegamos à estação hidroviária de Parintins. Na fartura fluvial amazônica, as rodovias são substituídas por hidrovias.

O barco, batizado de Dona Nilza, não chegava ao porto. Vinha de Manaus. Quiçá, as águas vigorosas do Amazonas atrasaram o barco-gaiola… Uma crença popular: as águas do Amazonas correm com força porque o rio é jovem e valente, arrastando tudo por onde passa – o que dá a sua cor barrenta. Vigor que pode atrasar a chegada das embarcações.

Por volta das 10 h, o Dona Nilza atracou. Um rebuliço no embarque e desembarque. Uns saindo com sacolas, caixotes, fazendo verdadeiras mudanças. Outros querendo entrar. Tudo ao mesmo tempo e pelo mesmo lugar, como se as leis da física não valessem por aquelas bandas. Naquela confusão, quando percebemos que o Dona Nilza iria partir, pulamos para dentro do barco. Difícil foi encontrarmos ganchos para pendurar nossas redes. Ufa! Por pouco não conseguimos. Nossas companheiras de rede eram senhoras bem simpáticas e sorridentes. Ah! O barco se chama gaiola porque as redes ficam uma do lado da outra. Sentimo-nos iguais a passarinhos na gaiola, apertados como no desfile de um bloco de carnaval pelas ruas do Rio.

Após alguns minutos, Parintins – cidadezinha nascida numa ilha no meio do Amazonas e famosa internacionalmente devido ao festival folclórico que acontece nos três últimos dias de junho – fica para trás. À frente, o céu-prateado e a extensa estrada fluvial.

Passageiros passam o tempo jogando dominó. Meninas dançam o brega – uma mistura de forró com axé, sucesso em toda a Região Norte. Alguns, simplesmente balançam nas redes. Ou conversam com outros viajantes. Inspiração para escrever impressões da aventura neste diário de bordo. 

São muitas as histórias ouvidas na viagem. Pessoas simples que foram tentar a vida em Manaus – caixas de supermercado, ajudantes de obra, faixineiros etc – retornam para a casa de férias, depois de anos, para reverem os familiares. Outros voltam de vez. Um povo sofrido, todos saudosos da vida tranqüila da beira do rio. Só querem um pouco de dignidade nessa vida. Um rapaz pobre, de coração humilde, impressiona: diz que na sua vida nada mais falta além de um amor. Tão belo escutar essas palavras daquele rapaz tão simples.

O entardecer cai. As margens do Amazonas, pequenas ao lado (o rio é muito largo), começam a desaparecer. O Dona Nilza segue solitário na penumbra da noite que chega. Os passageiros serenos recolhem-se nas suas redes. Esperam a próxima parada em Santarém, já no Pará. 

Durante a noite, a venda de bebida alcóolica anima os passageiros e, como em qualquer bar, alguns podem se exaltar e causar inconvenientes.

O Dona Nilza atraca na estação hidroviária de Santarém. Já é quase 1 h da madrugada. Passageiros saltam ansiosos. Vão ao encontro de seus lares. Outros permanecem no barco. Dormirão lá, aguardando a partida na manhã seguinte para Belém. Saltamos também, na ânsia de tomar o barco do Projeto Bagagem no dia seguinte e nos embrenhar na Amazônia cabocla ribeirinha. Também é possível fazer o trajeto entre Parintins e Santarém em confortáveis barcos com cabines. Mas qual é a graça?

Conforto Flutuante

TEFÉ, AMAZONAS – Criado em 1999 pelo governo federal, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá busca o crescimento econômico da região, sem alterar o uso tradicional dos recursos naturais e os costumes locais já perenes.

O instituto está localizado em uma unidade de conservação do estado do Amazonas, no Médio Solimões. Em 1990, a área foi considerada Estação Ecológica. Em 1996, com a aprovação do Plano de Manejo –  utilização racional dos recursos naturais -, a região foi alçada à categoria de Reserva de Desenvolvimento Sustentável.

É possível conhecer a reserva com bastante conforto. Além de atividades como passeio de canoa e visitas às comunidades ribeirinhas, a programação inclui caminhadas em trilhas para observação da fauna e flora. São oferecidos pacotes de três dias (R$ 770) ou quatro noites (R$ 900) com todas as refeições incluídas. Os pernoites acontecem na Pousada Flutuante Uacari, que dispõe de boa infra-estrutura, similar à encontrada em outros destinos turísticos mais badalados: restaurante, bar, biblioteca, sala de vídeo.

Para quem não quiser sacolejar em uma rede no meio dos rios amazônicos, nem dormir ao relento, é uma boa oportunidade de fazer o ecoturismo comunitário. Ou seja, sem agressões ambientais e criando condições de sustento à população que, dessa forma, segue preservando sua riqueza cultural. Os viajantes interessados em experiências interativas e originais, diferentes do turismo de massa pasteurizado, agradecem.

No balanço das águas

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Como chegar

De avião – a Varig (0300-788-7000) opera vôos diários do Rio a Manaus (para quem deseja descer de barco o Rio Amazonas) ou vôos diretos do Rio a Santarém.

Há companhias locais que operam na região com aviões de porte pequeno.

De barco – De Manaus a Santarém, são dois dias de barco. Nos barcos-gaiola, além da rede, há opção de viajar em cabines fechadas. Preços a partir de R$ 100,00. Informações: Marques Pinto (92) 523 2828. De Belém a Santarém, são três dias de barco. Preços a partir de R$ 140,00. Informações: Alves & Rodrigues (91) 225 1691 e Enasa (91) 257 0299.

Quem leva

Projeto Bagagem, em parceria com a Ong Projeto Saúde e Alegria. A próxima expedição acontece de 15 a 23 de janeiro. Preço por pessoa: R$ 1.050.

Na internet

http://www.projetobagagem.org (as inscrições já estão abertas)

http://www.saudeealegria.org.br

http://www.mamiraua.org.br

http://www.ibama.gov.br

Informações turísticas

Manaustur – (92) 622 4986

Agência Rio Amazonas – (92) 621 4359

Marinha Mercante – (92) 633 1224

Santarém Tur – (93) 522 4847

Belemtur – (91) 242 0033/0900

Paratur – (91) 212 0575

Preparativos

Vacina de febre-amarela, no mínimo, 10 dias antes da viagem (http://www.bio.fiocruz.br).

O que levar

Repelentes para afastar os carapanãs (insetos). Bonés, blusas e calças compridas e filtro solar para se proteger do sol a pino.

Uma manta para as noites na rede ao relento (ninguém imagina, mas sopra uma brisa bem fria por lá). Máquina fotográfica (e muitos filmes), filmadora e muita disposição para encarar o balanço das águas.

* Michelle Glória é pós-graduanda em Fotografia Social.

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Corredor Austral

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Corredor Austral

A magia do Corredor Austral

Michelle Glória

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 3/out/2004.

EL CHALTÉN, ARGENTINA – ”Rio 40º graus, purgatório da beleza e do caos.” Assim, Fernanda Abreu nos proclama. Mas que tal trocar, no próximo verão, as praias lotadas pelas inóspitas geleiras continentais? Na ponta da América do Sul, encontra-se o Parque Nacional de Los Glaciares – coração da Patagônia Austral. Lugar onde é possível vivenciar a força da natureza selvagem. Os ventos sopram com vigor. A paisagem é exuberante e plácida. Cenário ideal para quem possui o espírito aventureiro e deseja transcender o material.

Divididas entre o Chile e a Argentina, as paisagens do Corredor Austral – caminho turístico entre El Chaltén e Ushuaia, ambas cidades da Patagônia Argentina, formam um roteiro singular. No contraste entre o verde da mata, o branco das geleiras, o ocre dos campos áridos e o azul do céu, um cenário de sonho descortina-se diante dos olhos do visitante de espírito aventureiro. Entre caminhadas leves e pesadas, translados de barco e ônibus e pausas para recomposição das energias, leva-se entre 15 e 20 dias para cumprir o trajeto.

O Parque Nacional de Los Glaciares, ponto de partida da jornada, criado em 1937, abrange uma área de 724 mil hectares e possui 356 glaciares. Em 1981, foi declarado pela Unesco Patrimônio Natural da Humanidade. Assim, com a preservação da natureza local, futuras gerações poderão apreciar a esplendorosa beleza da região.

A estação do ano propícia para se visitar a Patagônia é o verão, época em que o clima é ameno. A temperatura média é de 19º C. Já no inverno, o ponteiro não deixa de registrar temperaturas negativas. Outro fator decisivo é a duração dos dias. No verão, o sol nasce por volta das 5h30 e despede-se em torno das 23h. São quase 18 horas de luz! No inverno, ocorre o inverso. As noites são longas e os dias, curtos – apenas oito horas de luminosidade solar.

El Calafate, na província argentina de Santa Cruz, é a porta de entrada para se mergulhar nos circuitos insólitos e mágicos dos glaciares. Além das rotas terrestres, é possível chegar à cidade pelo aeroporto internacional, inaugurado em 2000. Várias agências de turismo operam na cidade com diversificados roteiros – dos convencionais aos de aventura. São oferecidas excursões, desde translados para pontos turísticos até caminhadas com guias especializados sobre o gelo. Cavalgadas, observação de aves, pesca, turismo rural, navegação pelos canais das geleiras… Essas são algumas das diversas opções de programas usuais nas redondezas.

Cidadezinha pitoresca e charmosa, El Calafate concentra todo seu agito em uma única avenida repleta de flores coloridas, típicas da região. Lá estão os restaurantes, cafés, sorveterias, lojas de suvenir, artigos de montanhismo, agências de turismo. Não se pode deixar de provar o sorvete de Calafate, fruto de sabor exótico que originou o nome da cidade. A poucos minutos do centro, o cenário transfigura-se. Casas rústicas, povo simples, o horizonte sem fim e a imensidão de natureza intocada invadem a visão. Inimaginável pensar na existência de um lugar tão longínquo que reúna características tão diversas: a modernidade dos centros urbanos e a rusticidade do campo. Pura graciosidade!

Cerro Torre

Atmosfera de aventura ronda o cenário ermo

O povo de semblante com fortes traços dos seus ancestrais – os aborígenes patagônicos -, o céu encoberto por nuvens cinzas e o vento a rasgar o vazio das ruas esboçam a atmosfera de Puerto Natales, cidade chilena austral. A viagem de ônibus entre El Calafate, na Argentina, a Puerto Natales, já no Chile, também tem sabor de aventura: dura um dia, chacoalhando nas estradas de poeira e cascalho.

A cidade é a porta de acesso às ermas trilhas do Parque Nacional Torres del Paine. O clima de Puerto Natales já sinaliza o que vem pela frente: paisagens inóspitas, áridas, ventos ferozes – a força incontrolável da natureza. A atmosfera de aventura ronda o cenário – que chega a lembrar as cidades-fantasmas do Velho Oeste americano, só que, na Patagônia, a paisagem é cercada de picos nevados.

Desbravar alguns dos recantos mais remotos das Américas é uma experiência que nos remete à época das grandes navegações – em que o mundo velho estava em busca do novo -, das viagens científicas naturais – em que se procurava coletar informações da natureza e espécies desconhecidas.

Cerro Torre ao fundo.

No Parque Nacional Torres del Paine – Patagônia chilena -, é possível reviver a odisséia dos desbravadores de séculos atrás. A Patagônia Austral foi palco da intrepidez humana, no intuito de desvendar os mistérios do sul do planeta – corsários, missionários e naturalistas foram atraídos para lá. Muitas foram as expedições frustradas – naufrágios, exploradores perdidos e mortos.

Aventura – Caminhar quatro dias, com um mapa e uma bússola na mão, explorando o diferente, deparando-se com paisagens inusitadas no imaginário brasileiro faz-nos embeber a alma de perplexidade, conquista e encantamento.

Quem deseja vivenciar um pouquinho tais experiências exploratórias, nada melhor que caminhar pelas trilhas do Parque Nacional Torres del Paine, no Chile. O Parque, criado em 1959, foi declarado pela Unesco em 1978 Reserva Mundial da Biosfera. Possui uma área de 242 mil hectares, onde se encontram dois grandes e famosos monumentos naturais: as Torres del Paine e os Cuernos del Paine. Para admirar essas maravilhas, sentindo-se um desbravador, o ideal é fazer o clássico Circuito W (leia matéria nas páginas 4 e 5) sonho que vagueia as mentes dos apaixonados pelo trekking do mundo todo.

Um pouco de história

Glaciar Perito Moreno

O explorador argentino, geógrafo e paleontólogo Perito Moreno – que deu o nome ao mais famoso glaciar na Patagônia, tinha 21 anos quando fez sua primeira viagem às terras austrais, em 1873. Desde menino, interessava-se por fósseis, colecionava pedras vistosas, recolhidas nas beiras dos riachos que recortavam as ruas de Buenos Aires. Sua primeira expedição foi proveitosa. Perito descobriu crânios e objetos de pedras, úteis aos estudos dos indígenas patagônicos. A viagem inicial foi só o prenúncio de muitas outras que se sucederam, cada vez mais longas. Uma de duas maiores ações patrióticas foi o desenlace do litígio com o Chile, a favor da Argentina, sobre limites fronteiriços na Cordilheira dos Andes. Uma crença popular: o “P” de Perito Moreno advém do nome de batismo Francisco Pascasio Moreno, que mais tarde virou Perito – de homem experto, sábio, perito!

Na terra dos pinguins, claro, faz um frio…

PUNTA ARENAS, CHILE – Punta Arenas, no Chile, à margem do Estreito de Magalhães, é um grande centro urbano nas terras austrais. Possui até uma zona franca e um movimentado shopping. A pequena metrópole patagônica, onde se chega a partir de Puerto Natales em viagens de ônibus que duram uma tarde, surgiu em virtude da exploração de gás natural.

Devido ao clima muito frio e inóspito, a vida transcorre a portas e janelas fechadas. Casas coloridas, de madeira e chapa metálica, rústicas e sofisticadas, dão a face da cidade. Incrível é acreditar que os casebres não sucumbam aos fortes ventos que sopram por lá.

Aliás, Punta Arenas é a cidade dos ventos constantes – e cortantes! No verão, atingem a velocidade de 30 a 40 km/h. Às vezes, passam dos 100 km/h. Arrisque-se a andar pelas ruas da cidade: enquanto os desacostumados cambaleiam de um lado para o outro ao sabor dos ventos potentes, os residentes caminham tranqüilamente. Chega a ser engraçado.

Do mirador (um mirante) Cerro La Cruz, telhados de tons vermelhos, azuis e amarelos formam um belo mosaico. Ao fundo, o Estreito de Magalhães e, a despontar no horizonte, a silhueta sinuosa da Tierra del Fuego.

Punta Arenas é o melhor lugar para ver pingüins de toda a Patagônia. A Isla Magdalena – onde concentram-se as maiores colônias dessas simpáticas aves – foi declarada, pelo Chile, Monumento Natural de Los Pinguinos, em 1982. A ilha está no meio do Estreito de Magalhães. Não raras vezes, com os ventos bravios, a marinha proíbe a navegação. Daí, a opção é pegar um ônibus até as Pingüineras de Seno Otway – região costeira. Lá, embora em pouca quantidade, já é possível perceber a serenidade dessas aves encantadoras. Muito importante: feche todos os zíperes do casaco! Como não poderia deixar de ser: na casa dos pingüins, faz um frio danado…

Circuito W, uma passarela para novos exploradores

PUERTO NATALES, CHILE – O chamado Circuito W é composto por trilhas que se ligam e, quando traçadas no mapa topográfico, assemelham-se à forma da letra W. O circuito dura de quatro a cinco dias, dependendo do ritmo da caminhada. O ponto tradicional de partida é no Refúgio Las Torres, já dentro do Parque Nacional Torres del Paine. Para chegar até lá, pode-se tomar um microônibus na portaria Laguna Amarga ou ir a pé – cerca de uma hora e meia de caminhada. Optar pelo veículo permite iniciar o circuito no primeiro dia. No Refúgio Las Torres, largue a mochila-carga (pesada), pegue a de ataque (leve), abasteça-a com sanduíches, barras de cereais, água, chocolate e outros energéticos – acredite, você vai precisar!

PRIMEIRO DIA

A trilha do primeiro dia – perna direita do W – é árdua. São quatro horas de subida íngreme, entrecortada com raros terrenos planos e aclives suaves. O trecho mais brando, encravado na colina da montanha, margeia do alto o belo Rio Ascensio. Depois desse refresco, o desnível arriba é acentuado. Daí até a base das Torres del Paine, a trilha, bem escarpada, transforma-se num pula-pedra – brincadeira de gente grande. É necessário ter cuidado.

O desgaste físico é amenizado com o quadro inimaginável do lago verde-turquesa no pé das torres esculturais. O deslumbramento é ainda maior quando a razão se dá conta que esse cenário encontra-se no topo de uma montanha. É quase surreal. É mágico! É divino! O silêncio do lugar, por vezes levemente interrompido pelo soprar dos ventos, transmite uma paz ao espírito, acalmando a inquietude da natureza humana.

SEGUNDO DIA

Torres Del Paine.

Amanhecer no Refúgio Las Torres, olhando de longe o cume das Torres del Paine, faz relembrar os momentos inesquecíveis do dia anterior. Ao mesmo tempo, o olhar se despede delas com satisfação e alegria. No segundo dia, o terreno é pouco acidentado. A trilha segue ao lado do Lago Nordenskjöld. Quase cinco horas de caminhada deleitando-se com a cor azul-turquesa do lago. No entardecer, chega-se à base de los Cuernos del Paine. Suntuoso!

À noite, no Refúgio Los Cuernos, aproveite para degustar um bom vinho chileno. Inacreditável, mas é verdade! Os mantimentos vêm carregados pelas trilhas. Melhor ainda é saborear o vinho imerso numa torre de Babel. São pessoas de todos os cantos do mundo- espanhóis, franceses, alemães, israelenses e de muitas outras partes do mundo. Difícil é ouvir um som familiar – raras vezes encontra-se um brasileiro por lá.

TERCEIRO DIA

No terceiro dia, caminham-se duas horas até o acampamento italiano – onde inicia a perna central do W. Quem leva barraca, pode montar acampamento, deixar a mochila-carga e levar a leve. A trilha é pelo Valle del Frances. Nesse trecho, as montanhas estão cobertas de neve eterna. É comum nevar, mesmo no verão. Com o mau tempo, a prudência recomenda não continuar a caminhada e esperar no acampamento as condições climáticas melhorarem.

A Natureza é sábia, basta estar atento a seus mandamentos. É preciso ser humilde e recuar quando a adversidade é tamanha – o péssimo tempo é um indicador. É preciso deixar a audácia de lado, esquecer os esforços efetuados. E não querer domar o indomável.

Voltando do Valle del Frances, o melhor é partir logo para o Refúgio Pehoé, com duas horas de caminhada. Avistar de longe o refúgio dá a sensação de retorno ao civilizado. Lá, é possível tomar um catamarã e voltar para a cidade. Mas retornar só para aqueles com as energias esgotadas. Vale a pena passar a noite e seguir na manhã seguinte para o enigmático Glaciar Grey. Isso se a metereologia permitir. Às vezes, o mau tempo obriga a esperar um dia inteiro para continuar.

QUARTO DIA

No caminho para o Grey – perna esquerda do W-, percebe-se mais a solitude do lugar. Poucas são as pessoas que completam o Circuito W, a maioria opta por pegar o catamarã e voltar para a entrada do parque. A trilha, acidentada, margeia o Lago Grey. Durante o trajeto, avistam-se os blocos de gelo desprendidos do glaciar. As rajadas fortíssimas jogam o corpo para trás, para o lado. Proteja-se, já que cair para o lado errado pode ser fatal. De um lado montanhas, do outro o Lago Grey, pequenino, lá embaixo.

Caminha-se cerca de quatro horas e finalmente o Glaciar Grey surge para afagar as retinas. É o fim do W. Chorar, sorrir, pular de alegria. Sentimentos que se misturam, penetrando todos os poros do corpo e rincões da mente. O glaciar é majestoso, de uma beleza extravante e mágica. Fascina! Contempla-se o Grey de uma ponta do lago – um local selvagem, que nos remonta à Idade da Pedra, quando o mundo era despovoado e a natureza, bruta e intocada.

Findo o sonho, é pegar o caminho de volta e bem ligeiro. O catamarã tem hora para sair. Lá no Refúgio Pehoé, o elo com o mundo civilizado.

Los Cuernos.

Charme de Buenos Aires no fim do mundo

USHUAIA, ARGENTINA – Ushuaia – a cidade mais austral do mundo – possui o charme e glamour de Buenos Aires. Agradável surpresa. Após desbravar os recantos remotos da América, nada melhor que relaxar tomando um ”café cortado con medialunas” (em bom português, café com leite e croissants). E com o requinte portenho. As lojas, as cafeterias, os restaurantes da Calle San Martin – onde se concentra o burburinho – relembram o passear sereno pela Calle Florida, no coração da capital argentina. Uma dica imperdível: não deixe de saborear o delicioso cordeiro patagônico, acompanhado, é claro, de um bom vinho argentino (a uva malbec, tradução da nova e badalada enologia argentina, é o par perfeito para a carne suculenta e de sabor intenso). Rótulos que, aliás, nada deixam a desejar em relação aos vinhos chilenos. E detalhe: a preços ainda mais sedutores que os vizinhos do lado de lá da Cordilheira dos Andes.

A cidade está protegida por imponentes montanhas. São as últimas elevações das cordilheira. Os cumes sempre nevados fazem imaginar a cidade no inverno. Os cartões-postais mostram Ushuaia toda encoberta por um manto alvo. Deve ficar ainda mais glamourosa.

No inverno, o trekking (esporte do verão) é esquecido. Esqui, snowboard e a escalada em gelo entram em cena. E mais, é possível andar de moto de neve (uma espécie de jet ski) e trenó puxado por cães da raça husky siberiano. Uma espécie de Bariloche, mas ainda desconhecida para os brasileiros e por isso, mais exclusiva, autêntica, barata e encantadora.

Em Ushuaia, de onde partem cruzeiros para a Antártica, pingüins e lobos-marinhos em grandes grupos exibem-se para as câmeras dos turistas.

Programa imperdível é pegar um catamarã e navegar pelas águas do Canal Beagle. No verão, centenas de pingüins magalânicos, de cuello (pescoço) negro migram para aquelas águas, a fim de fazerem seus ninhos. Com sorte, pode-se avistar o corpulento e desajeitado pingüim-rei, de cuello amarillo (pescoço amarelo), comum no continente antártico.

Visitar os museus também vale a pena. É um banho de cultura patagônica. Volta-se para o Brasil, sabendo-se todas as histórias do fim do mundo: as expedições colonizadoras, a cultura dos indígenas locais, os grandes navegantes e naturalistas que passaram por lá.

Em 1831, Charles Darwin, na época um jovem estudante de Ciências Naturais, esteve nas terras mais austrais. Estava a bordo do navio Beagle, comandado pelo capitão Fitz Roy, numa viagem com fins científicos. Darwin coletou dados sobre a fauna e a flora. Anos mais tarde, as anotações do seu diário ajudaram-no a desenvolver a conhecida Teoria da Evolução das Espécies.

Para se despedir de Ushuaia com uma inesquecível imagem da cidade mais austral do planeta, nada melhor do que subir o Glaciar Martial – montanha nas vizinhanças. Pode-se caminhar até o topo ou pegar o teleférico.

No alto há um grande parque de diversões gelado onde pode-se brincar de escorregar no gelo, jogar neve ou simplesmente debruçar-se como na torre de um castelo e contemplar a bela pintura natural: Ushuaia, a cidade do fim do mundo, e o Canal Beagle, infinito!

Entre castores, zorros e pica-paus

USHUAIA, ARGENTINA – Plácida Baía Lapataia – enseada do Canal Beagle. Sua orla é repleta de conchas e pedras coloridas. A água, geladíssima – própria de uma praia austral. A trilha costeira do Parque Nacional Tierra del Fuego margeia esse belo cenário. Caminhada branda… Igual à emoção sentida, desvencilhada de adrenalina, tão comum aos programas por aquelas bandas. Ideal para um programa familiar.

Caminhar pelo parque é como um passeio no bosque. As trilhas são leves e curtas. Além do trekking, há outras opções de lazer: camping, pesca, observação de castores etc. Esses roedores foram trazidos do Canadá e introduzidos na Argentina para fomentar a indústria de peles. Não é raro surpreender-se com saltitantes coelhos europeus. Fofos, pulam, sorrateiramente, à sua frente, encantam as crianças, e não menos os adultos.

Observação da fauna – Da fauna patagônica, zorros colorados e guanacos são difíceis de se encontrar. Já o pássaro carpintero é facilmente avistado. Quando ouvir um golpear nas árvores, olhe para o lado, é ele: o pica-pau! O patagônico é todo preto, se fêmea, e de corpo preto e cabeça vermelha, se macho.

A única trilha desafiadora do parque é a subida íngreme ao Cerro Guanaco. São quatro horas até o topo por entre bosques, terrenos encharcados, campos de altitude, cascalhos, e neve. A vista? A imponente Cordilheira dos Andes.

A proximidade do parque à cidade Ushuaia e sua multiplicidade de trilhas nos fazem lembrar uma paisagem familiar. Aqui do lado de casa mesmo, a nossa Floresta da Tijuca, incrustada na Cidade Maravilhosa. Lá, bosques subantárticos. Aqui, Mata Atlântica. A diferença: o cenário. A igualdade: a natureza pulsante. Reveladora de sentimentos sublimes, universais…

Ah! América… Bruta. Extensa. Plural. De mil e uma facetas… Jovem encantadora! Que fogo em conhecê-la! Gilberto Gil e Capinam há muito já nos falaram: “Soy loco por ti, América/Soy loco por ti de amores/O fogo em conhecê-la/O fogo em conhecê-la/Soy loco por ti, América…”.

Eu e Angela, minha companheira inseparável de mochila e aventuras pelo mundo!

Na internet:

http://www.elcalafate.gov.ar

http://www.tierradelfuego.org.br

http://www.losglaciares.com

http://www.interpatagonia.com.ar

http://www.hihostels.com

Para ver a matéria do Jornal do Brasil, clique no post seguinte.

De Teresópolis a Petrópolis, dois dias pelas montanhas

Matéria publicada no Jornal do Brasil de 20/jun/2004.

Sobre o infindo mar de nuvens 

Caminhar sobre as nuvens… Por onde os pensamentos alçam elevados vôos e a mente, em transe, anestesia todo o corpo… Nem é preciso ir longe para vivenciar essa experiência metafísica: no Brasil, caminhar nas montanhas do Rio de Janeiro produz esse estado de quase transcendência.

No Parque Nacional da Serra dos Órgãos, localizado entre os municípios de Teresópolis e Petrópolis (e também abarcando áreas de Magé e Guapimirim), é possível chegar à altitude de 2.263 metros. Basta percorrer a trilha de fácil acesso que conduz até a Pedra do Sino – ponto culminante do Parque. Para se ter uma idéia, o imponente pico do Dedo de Deus, a 1.692 metros de altitude – facilmente avistado da estrada que liga a cidade do Rio de Janeiro a Teresópolis –, lá de cima fica pequenininho. Nossa percepção das nuvens também é alterada. Elas ficam abaixo dos nossos pés, transformando-se num imenso mar alvo, que estende-se além da linha do horizonte, onde nossa visão não mais alcança.

Para quem deseja prolongar a sensação de caminhar sobre as nuvens, o ideal é fazer a clássica travessia Petrópolis-Teresópolis – sonho dourado dos amantes do montanhismo. São 42 quilômetros de puro contato com a natureza. Tradicionalmente, a caminhada começa em Petrópolis; porém, como a subida por esse lado é íngreme, optamos por iniciá-la no sentido contrário, em Teresópolis.

O percurso da travessia não é bem demarcado. Assim, recomenda-se fazê-la com um guia experiente. É muito fácil se perder nos platôs da Serra! Os clubes de montanhismo do Rio de Janeiro possuem vasto conhecimento das trilhas do parque. Outra opção é contratar uma agência de ecoturimo.

A travessia dura de dois a três dias. Levamos dois dias apenas. A caminhada é pesada. No primeiro dia, levamos nove horas da entrada do parque, na sede Teresópolis, até o acampamento no Vale das Antas. A trilha inicia-se por entre as robustas árvores da Mata Atlântica. São quase cinco horas de subida contemplando essa paisagem. A neblina, que é comum nesse trecho, contribui para o ar misterioso da floresta. O último ponto com estrutura de banheiro e água encanada, já na parte alta do parque, é o Abrigo Quatro – normalmente, utilizado para dormir por quem faz a travessia em três dias ou, apenas, pretende curtir uma noite próximo às estrelas!

Nós que prosseguimos logo passamos pela Pedra do Sino. A partir daí, o grau de dificuldade aumenta. A caminhada transforma-se em escalaminhada. Em alguns trechos, é preciso pisar aderindo a bota na rocha – técnica básica de escalada. Boa parte da trilha segue por entre os campos de altitudes – vegetação rasteira, típica das montanhas elevadas. No primeiro dia, não conseguimos apreciar a magnífica paisagem, pois a cerração estava densa. Ainda assim, valeu a pena estar ali, pois é fantástico sentir de perto as várias facetas da natureza – inclusive o mau tempo.

No dia seguinte, fomos presenteados com o céu azul. Festejamos! Depois de algumas horas de caminhada, nos deparamos com o visual da Baía da Guanabara, das montanhas da Serra dos Órgãos – Pedra do Garrafão, Dedo de Deus, etc etc etc. O corpo logo se esquece do cansaço físico e a mente mergulha na contemplação do belo cenário!

Antes de descermos para Petrópolis, paramos para fazer o último lanche. Também é preciso recarregar as energias! Sanduíches, barras de cereal, frutas, salaminho… Lá nas alturas, tudo vira um saboroso banquete. O espírito do grupo é de confraternização, solidariedade e alegria. Afinal, após intenso desgaste físico, conseguimos atingir nosso objetivo: apreciar a estonteante paisagem da Serra dos Órgãos, do infindo mar de nuvens e, é claro, da Cidade Maravilhosa – lá no fundo, como quem se esconde.

“Rumo ao Céu”. Foto premiada no concurso do Parque Nacional da Serra dos Órgãos em 2005.

Como ir:

http://www.icmbio.gov.br/parnaso

http://www.parnaso.tur.br